sábado, 24 de novembro de 2012

Soneto Bipolar

Sua voz alta, seu olhar perdido.
Sua certeza alucinada na vida.
Sua lágrima desesperada e partida.
Noites e dias num brado destemido.

Sua voz emudecida, seu olhar vazio.
Sua certeza perdida, desde cedo.
Sua lágrima contida por medo.
Noites e dias escondido sob o Rivotril.

Sua voz pastosa, seu olhar suplicante.
Sua certeza despedaçada sob o punho duro.
Sua lágrima caindo com medo do escuro.
Noites e dias de um pesadelo constante.

A tarde em que o abandonei e fiquei sozinho,
Um pedaço meu também ficou pelo caminho.

Thiago Marques (SP, 15/08/2012)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Infância na mira.


Em recente pesquisa, divulgada pela Carta Capital, 89% dos entrevistados se declararam favoráveis à redução da maioridade penal (para 12, 14 ou 16 anos). No debate, ouço sempre argumentos sobre a violência e a crença de que esta medida remediaria o fenômeno. Pouco ou nada ouço sobre a desigualdade e a violência sociais que estes jovens sofrem, ou sobre sua condição de pessoa em especial estágio de desenvolvimento, que deve ser respeitada e protegida com absoluta prioridade (como consagrado em nossa Constituição e respaldado nos tratados internacionais de Direitos Humanos).

Também acho curioso, a despeito destas pesquisas, que crianças e adolescentes de classe média e média alta (em sua maioria brancos), quando comentem pequenos furtos, vandalismos e violências, são encaminhados a psicólogas e, quando muito, penalizados com o confisco temporário de seus smartphones e ipads, ou restrições ao acesso às redes sociais, impostas pelos pais. E ninguém diz que isso é impunidade, ou protesta.
Mesmo em crimes bárbaros, como atear fogo em pessoas em situação de rua, eles são inocentados e tratados com todo cuidado e justiça que suas famílias podem comprar. Lembro do que escreveu uma amiga sobre as bravatas por ética no Brasil. Comentava que há uma distância entre essas exigências e a conduta cotidiana antiética, e muitas vezes criminosas, das pessoas que exigem ética na política, por exemplo. É o distanciamento entre o discurso e a prática. É o abismo entre o "eu" e os "outros". Há também o eco de uma sociedade elitista e racista, ainda marcada por sua história de escravidão, privilégios, autoritarismo, desmandos e desigualdade economicamente legitimados.

Vivemos um momento de extremas contradições (para não usar palavra mais forte e adequada). Vemos a liberdade religiosa - incluindo a liberdade de não ter religião - ser violentada nas casas legislativas e nas escolas públicas. Violência voltada, especialmente, às religiões não cristãs. Vemos os direitos sociais atacados por intelectuais e estudiosos neoliberais. Vemos as políticas afirmativas judicializadas por um “racismo democrático”. Vemos a gentrificação, genocídio e eugenia praticadas pelo Estado de direito. Vemos a homofobia, machismo e apologia ao estupro (fantasiados de “humor politicamente incorreto”) serem defendidos em praça pública, em nome de uma suposta liberdade de expressão. E vemos tudo isso ser apalaudido o que é, talvez, o  absurdo mais assustador.

Vemos tudo isso e será que nos faremos de cegos, também, com relação a esse discurso violento e amedrontado, ignorante e individualista, racista e elitista voltados aos jovens e às crianças, social e economicamente vulneráveis? Não basta vê-los sob a névoa de uma invisibilidade social, que só se dissipa nas festas natalinas, mas agora vamos responsabilizá-los como se adultos fossem, por reagirem com violência, depois de serem violentados a vida inteira?
Como disse, vivemos um momento de grandes contradições, mas ainda tenho esperança que não fecharemos os olhos, não emuderemos a boca e não taparemos os ouvidos. Tenho esperança que não ficaremos parados frente a mais uma injustiça terrível que se quer institucionalizar. Que nos mobilizaremos para garantir Justiça Social e não justiça de talião, motivada por medos e preconceitos.