domingo, 30 de setembro de 2012

Blues de domingo

No domingo, o Sol nasceu,
Todo céu se encheu de azuis.
Mas, não sei bem se sou eu,
A casa está nesse blues.

É manhã de maré rasa,
E o mar cheio de anjos nus.
Eu não sei o que se passa,
A casa está nesse blues.

Fazem churrasco aqui ao lado,
E a mangueira come luz.
Mesmo co’o banquete armado,
A casa está nesse blues.

Ouvindo o rádio de pilha,
Lembro a valsa que compus.
Desisti da redondilha,
A casa está nesse blues.

Não é época, mas percebo,
Um cheiro bom de cajus
No ar. Mas que desassossego,
A casa está nesse blues.

A brisa fresca faz festa,
Entre as folhas que conduz.
Sigo as folhas, é o que resta...
A casa está nesse blues.

Nem violão, nem Tulipa,
Nem Oxalá, nem Jesus,
Meu peito mal acredita,
A casa está nesse blues.

Canta Billie, canta Nina,
Êta, como Etta seduz,
No som, minh’ alma se afina,
Que a casa está nesse blues.

Thiago Marques (Salvador, 30/09/2012)









sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Tempo e Loucura

Pintura de Marcos Cotta - Museu Imagens do Inconsciente
São quatro horas, da tarde de ontem, em canto nenhum.
Antes que eu acorde, que tu acordes, antes dele acordar,
Na tarde de segunda, amanhece domingo, pra Lua passar
E levar os restos do desencanto dos dias, um a um.

É meia-noite, é Lua cheia, é a hora “h” há séculos atrás.
Os olhos percorrem o relógio, que corre sem sair do lugar.
Todos correm e, sem pressa, mato tempo pra não me matar,
Que meu passa-tempo é pensar que, agora, já tanto faz.

Foi no tempo que eu chorei, quando sorri e respirei fundo,
Pra sentir o tempo me encher os pulmões de saudade.
Saudades de amanhã, d’onde não fui, agora muito tarde.
Meu tempo, que ninguém conta, ignora o tempo do mundo.

Quantas décadas cabem no meu segundo, nessa mistura
Que não se entende, e nem quer. Meu tempo desobedece
Relógios, calendários, previsões, correrias, mas prevalece.
Ele floresce, anoitece, entorpece e se esvai na altura.

Meu tempo é um tempo de vórtice e candura,
Meu tempo, nem é tempo, é mais gemido e prece.
Não sei bem o que parece, quando o tempo adormece,
Porque meu tempo é eternidade, o tempo da loucura.

Thiago Marques (Hospital São Rafael, Salvador, 28/09/2012)