sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poema para noite

A noite passa como um gato preto
Assustado pela janela de meu quarto,
Tropeça bêbado de si mesmo e farto
De lua. Acelerado coração no peito,
A noite passa como um gato preto.

Silenciosa, faceira e desatenta,
A noite caminha sem olhar pra trás.
Só eu me lembro, já tarde demais,
D'outra noite que passou lenta,
Levando consigo a Lua ciumenta.

A noite passa como vento frio
Levantando folhas, sonhos, lembranças,
Suspiros, mãos-dadas e esperanças.
A noite passa tecendo seu fio,
Amortalhando meus olhos vazios.

A noite passa, sem querer saber de dia,
Ignorando a manhã e o Sol narciso,
Desafiando moralistas sem sorriso,
A noite passa dançando, alegre e baldia,
Roubando-me o sono e sonhos do que seria.

A noite passa morena, deixando um perfume
De saudade no rastro de seu caminho.
A noite passa como uma música ou um carinho,
Enquanto eu, sozinho, recito um queixume,
A noite passa morena, deixando seu perfume
De saudade.

Thiago Marques (São Paulo, 22/06/2012)




quarta-feira, 20 de junho de 2012

E por falar tanto em Amor...


Eu a vi a caminho de algum canto.
Íamos distraídos, naquele fim de dia,
Sob uma chuva fina que, então, caia,
Distraídos, sem pensar, sem espanto.

Eu a vi sentada sobre sonhos desfeitos.
As pernas encolhidas sob a camiseta suja,
Braços contendo os anseios d’alma, cuja
Luz transbordava dos olhos para o peito.

Transbordava como aquela chuva fina,
Silenciosa e clara, sobre a pele tão escura,
Dos olhos vermelhos, uma lágrima pura,
De uma tristeza, que já foi uma menina.

De um esquecimento que já foi pessoa,
De um estorvo aos olhos que já olhou
Ela própria o futuro e pensou em amor,
Em carinho, em sonho, em riso à toa.

Daquela lágrima eu quis tirar um sorriso,
Para aquela solidão eu ser um abraço,
À indiferença geral, quis destruir o espaço,
Para a chuva, queria um grito sem aviso.

Escrevo por calma, mas minh’alma é aflita.
Fico nela esquecido, enquanto lembro dela.
Sentada sozinha no chão daquele viela,
A lágrima que não chorei, a palavra não dita.

Ninguém mais a viu, acho que mais ninguém
Quis olhar e ver seu medo refletido na sorte
Dela. Eu quero ainda voltar e abraça-la forte
Dizer que a amo, choro com ela e a quero bem.

Quis perguntar tolamente, por que você chora?
Mas, em seu lugar, quem não choraria, então?
Quis chega-la pra perto, guarda-la no coração,
Mas como todos, tudo que eu fiz foi ir embora.

Thiago Marques (São Paulo, 20/06/2012)





domingo, 17 de junho de 2012

Desculpas para um velho Amor


Se a noite é morena
E a lua paira alta,
Se a brisa nos acena
Cada dia de sua falta.

Se a calma se apequena,
E o coração nos salta,
Se a vida nos encena
A farsa pela qual se pauta.

Se o coração inquieto
Recita o mesmo nome,
Se o tempo do afeto
Para o Tempo e me consome.

Se uma lembrança é feita
De um terço de uma só prece,
E a reza não aceita
Esquecer o que gente não esquece.

Se o Amar tem olhos castanhos,
E o peito insiste nessa ladainha,
Convenha que não é tão estranho
Saber-me seu e sonhar você tão minha.

Thiago Marques (Sampa, 17/06/2012)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma parte morena de mim


Uma parte morena de mim,
Nunca lembra que a esquece
E se a noite recomeça enfim,
Diz seu nome feito uma prece.

Porque parte de mim é sonho,
Outra parte 'inda não sei.
Parte sabe meus pecados,
Outra parte perdoei.

Parte se perde, outra só me invade,
Parte de mim é fogo, parte sente frio,
Parte é a mais crua verdade,
Mas noutra parte não confio.

Uma parte morena de mim
Nunca lembra que a esqueceu,
Pois a parte que era dia
Ainda não anoiteceu.

Porque parte de mim é vida, 
Outra parte pereceu,
E a parte que não é sua
É a parte que não sou eu.

Uma parte morena de mim,
Caminha de mãos dadas com você,
Outra parte segue sozinha,
Esquecida de te esquecer.

Parte leva a cruz, parte é leveza,
Parte de mim queria, o que a vida não quis
E se vestiu toda de tristeza,
A parte que queria ser feliz.

 Thiago Marques (São Paulo, 12/06/2012).


São Paulo, 11 de Junho de 2012



São Paulo, 11 de Junho de 2012
Eu, madrugada acordado em suor.
Manhã de trovoadas,
Tarde de brisa gelada
E outra madrugada de névoa e pó.

Eu só quis m’enterrar no cobertor
Afogado em meus sonhos.
Lembranças, eu suponho,
Talvez esperanças d'um velho amor.

Mas encontro à tarde conversa boa,
Com café bom, sorrisos
E olhares indecisos.
Na volta sou só suspiro e garoa.

Tempo que é pai, Tempo que faz o quê?
Sonho que vai, onda que traz você...
Thiago Marques 
(Sampa, 12/06/2012)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O segredo de meus olhos


A Saudade tem imensos olhos verdes de mar,
Olhos profundos, imprevisíveis e inconstantes...
Olhos fugidios, que dançam no horizonte distante.
A Saudade tem olhos que me põem a naufragar.

O Pesar tem olhos de céu, acinzentados e azuis,
Como em uma manhã qualquer de qualquer dia,
Quando o vento encobre de nuvens, o sol que luzia.
O Pesar tem olhos que carrego como uma cruz.

O Ciúme tem olhos castanhos de tempestade
Que relampeja, troveja e se desfaz em água.
O Ciúme tem olhos que me inundam de mágoa.

Mas o Amor é confidente e fiel. Ele é espera e eternidade.
Mais que a paixão, o Amor tem olhos negros profundos,
O Amor tem olhos que abrigam todos os olhos do mundo.

Thiago Marques Leão (São Paulo, 07/06/2012)