quinta-feira, 29 de março de 2012

"O poder é mantido no Brasil, sobretudo, pelo medo, pela indiferença""

http://www.radiometropole.com.br/noticias/index_noticias.php?id=VGxSWk1rMVVTVDA9
Movido por uma conversava com um querido amigo de Salvador, via Facebook, e por uma nova amiga também de Salvador (que hoje mora no RJ), resolvi trazer essa conversa pro blog. Acho que todos sabem sobre o episódio na comunidade de Pinheirinho, São José dos Campos (SJC), ocorrido em agosto de 2011. Quando ocorreu, com "emprego de tropa de choque da Polícia Militar, a expulsão violenta dos seus lares de 1,5 mil famílias pobres, com apreensão de todos os seus pertences e uso da tática militar da surpresa e a agravante de não lhes ser ofertado um teto substitutivo de abrigo" [1], por força de uma reintegração de posse, de suposta massa-falida, contra famílias que ocupavam a área promovendo ali sua função social.
Moradores do Pinheirinho sentiram a mão pesada da polícia paulista. Foto: Reuters/Latinstock [1]
Abrigo em Igreja para famílias despejadas o Pinheirinho. Foto: Anderson Barbosa/Fotoarena/Folhapress [6]
Hoje, Pinheirinho é "um pedaço de terra cercado", como disse Clara Roman [2], "Um terreno baldio, a perder de vista, é o que sobrou do assentamento Pinheirinho" [2]. Depois de usar a força policial - principal estratégia de ação do Governo Paulista e Paulistano, para lidar com questões sociais e políticas, vejam a gentrificação na Luz e a PM na USP - é que o Governador Geraldo Alkimin foi pensar em "aluguel social". Até lá, as famílias foram abrigadas precariamente em igrejas ou ginásios de escolas. 
A conversa no Facebook girou entorno do seguinte vídeo:


O questionamento de meu amigo foi sobre o direito a crédito e a legalidade da ação. Comecei a responder, transcrevendo parte da fala do procurador, que busca explicar por que a ação em Pinheirinho foi, claramente, um crime contra a humanidade, previsto pelo Tribunal Penal Internacional -> "deportação ou transferência à força de uma população". E pede que assinem uma petição online, que seguirá para Comissão Interamericana de DH:
Chegaram às minhas mãos algumas peças do processo de falência. Então eu tenho informação do que realmente acontece no processo de falência da Selecta. E nós dizemos, todos aqui dizem e a imprensa diz “a massa-falida da Selecta”. Eu vou contar uma coisa pra vocês: não há mais massa falida da Selecta. Só existe o senhor Naji Nahas. Porque a falência está materialmente encerrada. E eu tenho um documento sobre isso, que é um despacho de próprio punho, que um jornalista me passou, do dr. Luiz Beethoven (juiz da 18ª vara cível de SP) [...] Dr. Luiz Beethoven, despacho de próprio punho: “É que a massa comporta a falência que está virtualmente finda e o restante do numerário será devolvido ao falido”. Vocês sabem de quando é esse despacho? De 2006. Em 2006 todos os credores da massa falida estavam pagos. Uma nota de rodapé: por que eles estavam pagos? Porque o senhor Naji Nahas foi comprando créditos dos seus credores, certamente com grande deságio, de modo que a essa altura ele já era credor de si mesmo. Mais uma dessas manobras maravilhosas do capital financeiro. Essas mágicas que o capitalismo oferece.
Mas eu devo lhe dizer que, em verdade, ainda que houvesse massa-falida, isso teria pouca importância para mim no contexto do que aconteceu e da forma como aconteceu, principalmente. Isso porque o interesse dos credores e seu direito a crédito, em momento nenhum me parece mais relevante do que o direito fundamental à moradia, vida, integridade física e dignidade dos moradores de Pinheirinho. 
Eu acredito na supremacia dos direitos fundamentais. Há uma razão para serem chamados de fundamentais. Tenho ouvido pessoas próximas, na mídia tradicional, ou no mestrado, com discursos fundados em um egoísmo social forte. Já falei disso noutro post. Também tenho ouvido amiúde um discurso cínico, que busca deslegitimar e criminalizar ações de cunho social, dizendo que há interesses escusos e egoístas por trás, que "fulano" quando defende uma causa justa, na verdade é porque vai se candidatar ano que vem pra vereador, ou que tal ação é estratégia de partido político. Como se sentimentos de indignação e mobilizações sociais não pudessem acontecer sem "a mão diabólica de partidos políticos ou mesmo interesses escusos por baixo" [3].
Laerte
Isso, pessoalmente, parece-me que desistir de qualquer esperança de justiça social. Mas, de repente, eu estou falando essas coisas bonitas porque 2012 é ano de eleição.  O que me choca é que são bandeiras levantadas em nome da solidariedade e justiça social. Nesses casos sempre se questiona os motivos (até porque Direitos Humanos no Brasil, é desculpa pra bandido, né?). Mas nas ações que deveriam nos indignar, como a ação em Pinheirinho, ou a gentrificação no bairro da Luz, com os usuários de crack e moradores antigos, não se questionam que interesses há por trás.
Uma resposta possível, mas decepcionante, é que as ações que nos incomodam atingem pessoas como nós (de classe média, média alta) ou pessoas que alguns almejam ser (ricos, o 1% de que se fala tanto) . 
Foto: CRIS FAGA/AGÊNCIA ESTADO [8]
As bandeiras, cujos "interesses" questionamos, por outro lado, querem proteger aqueles que preferimos não ver e que esperamos não ser: os pobres, os marginalizados social e historicamente, os que (alguns gostariam que fossem) invisíveis ou que, para o sistema capitalista, têm pouca ou nenhuma importância. [4]

Se por um lado, esse discurso de egoísmo social [5] está muito presente em SP, acho fantástica a mobilização civil, e mesmo institucional, que vejo aqui. Pessoas que realmente saem da potência para a ação. E esse movimento de denunciar o Estado de São Paulo à Corte Interamericana de Direitos Humanos e propor emendas ao Código de Processo Civil e à CF/88, é um movimento lúcido, admirável e que busca efetividade, em sua ação:

As formas cruéis de violência sofrida pelos ex-moradores de Pinheirinho são chocantes. Eles foram expulsos de suas casas, tiverem bens apreendidos e foram estigmatizados pelo Governo e por parte da mídia como os "invasores de Pinheirinho".

Depois da operação, as famílias do Pinheirinho contam sofrer todo tipo de estigma. Uma mulher reclama que não consegue matricular seu filho na escola, depois que disse ser ex-moradora do Pinheirinho. A estratégia da prefeitura para esvaziar os abrigos é oferecer aluguel social, traduzido em um cheque de 500 reais. Mas o morador só pode ter acesso ao dinheiro depois de comprovar que terá onde gastar. Muitos encontram dificuldade em fechar o contrato do aluguel por apenas seis meses, período em que a prefeitura garante o pagamento. Vários contam terem perdido os empregos, depois de aparecerem na televisão como os invasores do Pinheirinho. “Ficamos com todas as famas ruins: de baderneiro, invasor”, indigna-se uma das ex-moradoras no assentamento. [2]
O estigma e as violências sofridas pelos moradores são revoltantes. Um dos vídeos que mais me comoveram, foi o depoimento de Suplicy, figura que me fazia falta ver, neste contexto. Infelizmente, foi por conta deste evento. Suplicy denuncia torturas, abusos sexuais:

[7]
Parece haver uma política sistemática e declarada do Poder Público Paulista, de enfrentar situações de cunho social, ou mesmo de saúde coletiva, com a PM. Um movimento de criminalização dos movimentos sociais e de repressão violenta que, pasmem (ou não), encontra eco na sociedade civil. Não há como não lembrar os anos 60, no Brasil, quando ouvimos certas declarações por aqui (mas não é privilégio de SP, na BA tem gente com saudades de Toninho Malvadeza, ACM pros não-baianos). 
O título deste post é de um trecho da fala de Fabio Konder Comparato (vídeo acima), e expressa uma questão muita cara, pessoalmente, e que permeia minhas postagens aqui: participação social e solidariedade. A individualização do comportamento humano e a apatia, ou indiferença (será medo?) parecem preponderar. Os escândalos (políticos ou não) viram bate-papo de mesa de bar e morrem ali, entre petiscos e cervejas. Nós nos contentamos em reclamar mas depois vamos dormir aquele sono bom que uma ou duas cervejinhas proporcionam. Porque tudo no Brasil acaba em pizza mesmo, né? "O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles." (S.B.)
http://revistaemquestao.wordpress.com/2010/01/13/fotos-que-falam-1/

Mas a quem interessa que essa ideia da pizza se firme? A quem beneficia essa indiferença social? Certamente não a quem é, hoje, oprimido. Mas se o fundamento moral da solidariedade[4] não é suficiente para você, vamos a uma fala de um documentário sobre o Projeto Nova Luz [9] que vi em 2011, onde dizem, (mais ou menos) que "se acontece na Luz, pode acontecer em qualquer lugar de SP". E vamos lá, se acontece em SP (com máscaras de legalidade e concordância do Poder Judiciário, como foi em Pinheirinho), pode acontecer em qualquer lugar do Brasil e, da noite pro dia, não são só os "socialmente invisíveis" que são afetados... qualquer um de nós pode ser.

[3] Vale muito à pena ver este videozinho (breve vídeo) de Sakamoto na USP: http://www.youtube.com/watch?v=_uXlXpBEUf8
[4] Resposta que não é minha apenas, mas que veio da lembrança do texto de Bauman (também já muito citado aqui): BAUMAN, Zygmunt. Sou por acaso o guardião do meu irmão? In      .  A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 95-109.
[5] Doce ilusão minha, achar que esse termo era novo... Maldito Google destruindo meus sonhos!
[6] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/supremo-e-acionado-para-suspender-a-desocupacao-de-pinheirinho/
[7] http://exame.abril.com.br/economia/brasil/cidades/noticias/por-que-so-a-policia-nao-resolve-o-problema-da-cracolandia
[8] http://brasil247.com/pt/247/brasilia247/35048/Guerra-da-cracol%C3%A2ndia-aterroriza-comerciantes.htm
[9] Foi onde aprendi a palavra gentrificação: http://www.youtube.com/watch?v=cptmzku7vhk

quarta-feira, 28 de março de 2012

Lei "antibaixaria": Censura ou Garantia de Direitos?


Na noite desta terça-feira (28/03/2012), a Assembléia Legislativa da Bahia aprovou o Projeto de Lei (PL) nº 19.203/2011 que proíbe "o uso de recursos públicos para contratação de artistas que em suas músicas, danças ou coreografias desvalorizem, incentivem a violência ou exponham as mulheres a situação de constrangimento", de autoria da deputada estadual Luiza Maia (PT). O projeto sofreu uma emenda, que excluiu a referência a "danças ou coreografias", valendo apenas para músicas cujo conteúdo "incentive a violência ou exponham a mulher a situação de constrangimento". Só falta, agora, o Governador da Bahia, Jaques Wagner, sancionar [1].

Soube do PL pelo Facebook (a internet como instrumento de mobilização e expressão política vem se mostrando muito fértil) e ao procurar mais informações, eu me deparei com alguns comentários previsíveis, mas que não por isso devem ser ignorados. O argumento mais alardeado foi o da "censura". Não vou fingir que eu leio esses comentários e sigo incólume. A banalização de algo tão sério como a censura, ou sua utilização descontextualizada, acaba me incomodando muito. É um discurso (intencionalmente ou não) pautando pelo medo e pelas feridas ainda recentes da ditadura. 

Se por um lado não devemos e não vamos esquecer a barbárie da ditadura, ela também não pode pender sobre nossas cabeças, como estratégia ideológica de controle social. Isto é, não pode ser usada como o 11/09 estadunidense, justificando guerras e restrições aos Direitos Humanos. O passado precisa ser encarado critica e conscientemente, não como contos de lobos maus são encarados por crianças (pelo menos como quando eu era criança).
Quando lembramos do Ai-5 e do período ditatorial, as ações de censura eram levadas a cabo, por cabos de cassetete da PM (a borracha de apagar ideologias de Mafalda). A censura proibia a divulgação de determinados conteúdos, manifestações, opiniões e, sim, obras artísticas como a música. Esta censura bania a obra e, no mais das vezes, bania o artista que se refugiava em outras terras, sob pena de acabar nos porões de tortura do regime militar ou desaparecer (principais razões da censura, pra começo de conversa). A censura aí, era antidemocrática, violenta e definitiva. Wagner Homem, no livro "Histórias de Canções - Chico Buarque", comenta sobre o cenário em 1968:

"No explosivo ano de 1968, o PC do B (Partido Comunista do Brasil) prepara-se para a luta armada no Araguaia. Nas cidades, aumenta o número de manifestações estudantis violentamente reprimidas (algumas com mortes), de greves, atentados e assaltos a bancos e instalações militares. Por seu lado, a direita contra-ataca destruindo editoras e teatros com matriz de esquerda." [2]
O PL, por sua vez, não propõe nada dessa natureza, por óbvio. Foi objeto de debates no Legislativos, recebeu críticas e mesmo emendas, foi publicizado e teve participação popular. Contou com "a participação do movimento de mulheres, artistas e representantes de entidades do mundo jurídico, a exemplo da OAB-Bahia, Ministério Público, da Vara de Violência contra a Mulher e a Defensoria Pública". [3]
A proposta é simples e coerente com os princípios constitucionais e com a postura de um Estado (País) signatário dos tratados internacionais de Direitos Humanos. É pautada pelo respeito à Dignidade Humana e pelo enfrentamento da violência contra as mulheres. Como explica a professora Cecilia Sardenberg:
"o enfrentamento à violência de gênero contra as mulheres, particularmente a violência simbólica de gênero, que se infiltra por toda a nossa cultura, legitimando os outros tipos de violência. Por “violência de gênero”, refiro-me a toda e qualquer forma de agressão ou constrangimento físico, moral, psicológico, emocional, institucional, cultural ou patrimonial, que tenha por base a organização social dos sexos e que seja impetrada contra determinados indivíduos, explícita ou implicitamente, devido à sua condição de sexo ou orientação sexual. Isso implica dizer que tanto homens quanto mulheres, independente de sua preferência sexual, podem ser alvos da violência de gênero. Contudo, em virtude da ordem de gênero patriarcal, ‘machista’, dominante em nossa sociedade, são, porém, as mulheres e, em menor número, os homossexuais, que se vêem mais comumente na situação de objetos/vítimas desse tipo de violência". [4]
Como filho da terra, sinto-me muito à vontade para comentar um pouco sobre o carnaval soteropolitano. Nascido com uma vocação popular imensa, hoje reproduz o racismo que quer se fazer velado na Cidade da Baia de Todos os Santos. [5] Para além disso, o clima de violência contra a mulher é claro e assumido e, por alguma razão, tolerado. Mais que tolerado, incentivado por músicas e por músicos, blindados em seus carros de som, olhando o povo lá embaixo, como Reis (Momós) olham seus súditos. "Meu irmão, 'tá vacilando, 'garra a gatinha aí do lado e mete o bêjo".
Para além da violência moral e do constrangimento causados por essas músicas, vemos a promoção da imagem "coisificada" da mulher. É a música que dita o ritmo da festa momesca, tendo algumas um forte efeito de permissividade e violência. Além disso, é passado para outros Estados brasileiros a imagem de que na Bahia (e notadamente em Salvador) "tudo pode". Certa feita um gaúcho quis conferir se era assim mesmo, com uma baiana de acarajé em Itapuã. Ela riu, aquele riso bonito que elas têm, não disse nada, e respondeu com a pimenta no bolinho frito do turista. É um retrato interno, de como certos turistas estrangeiros chegam ao Brasil.
Quem já foi ao carnaval de Salvador, sabe como são comuns as "rodas", onde homens cercam mulheres que só podem sair depois de beijá-los, homens que agarram mulheres na rua, puxam pelos cabelos. Falo isso com uma tristeza imensa e constrangido pelo que se tornou o carnaval em minha cidade natal. E as músicas promovem, sim, esse clima de violência. 
Ao contrário da censura, o PL não propôs acabar com a música que faz uso desse discurso e cujo conteúdo é depreciativo e/ou incita a violência contra mulher. O PL apenas segue o que deveria ser óbvio: o Estado não pode endossar, financiar ou promover discursos dessa natureza! Em Salvador, isso toma proporções ainda maiores, já que a Municipalidade tem insistido em reduzir a imagem da cidade a 01 de suas muitas manifestações culturais. Não por acaso a mais distorcidas pela lógica capitalista, empacotada, feita em mercadoria [6] e consumida no estilo fast-food.
Quando o Poder Público vincula sua imagem, financia e promove esse tipo de discurso, está endossando, está reproduzindo e está legitimando. Como comentou a professora, essa lei demorou a vir, levando em conta que nossa Constituição é de 1988. [4]
Mas veja bem, não estou entrando no discurso paternalista e cult, comentado outro dia por Sakamoto, de "civilizar pela música" [6], nem estou escalonando os estilos musicais. Mas discursos que discriminam, racistas, machistas, violentos não podem ser financiados pelo Poder Público. Não é, portanto, censura, mas coerência.
Censura é prender o Planet Hemp por falar em maconha e mandar a polícia dispersar manifestações pacíficas na UFBA, na USP, na Avenida Paulista, ou em frente ao Congresso Nacional, a toque de cavalaria e cassetete. Por quê não falam em censura nessas horas? 
Outro argumento contrário me chamou atenção. Foi feito pela vereadora Léo Kret (PR) que, não casualmente, é do mercado do carnaval soteropolitano [7]. Disse a vereadora: "Acho que pode prejudicar financeiramente as pessoas que tocam essas músicas." [1] Isso me chamou atenção por dois motivos: primeiramente, pela história da vereadora, imaginei que ela seria mais sensível a questões de violência e gênero. Além disso, essa me parece que é a principal preocupação em jogo. Se tivesse oportunidade, tranquilizaria Léo Kret, explicando que é possível fazer música (seja de que estilo for) sem esse discurso machista, violento e depreciativo. Inclusive mantendo a tão citada característica do "dublo sentido" da música baiana. Duplo sentido não é sinônimo de violência e se faz duplo sentido de bom gosto (pelo menos eu gosto) há muito tempo.
Luiz Gonzaga fazia (ainda que se diga que algumas eram machistas, era o contexto histórico e não eram depreciativas ou violentas, no sentido tratado pelo PL, ao meu ver, posso estar enganado), Caetano Veloso, Gilberto Gil (ambos baianos) e meu caro Chico Buarque fazem, o tempo todo! E são geniais nisso.
Também, queria dizer à vereadora e aos músicos que levantam essa bandeira (do lucro), que direitos fundamentais e Dignidade Humana se sobrepõem (ou deveriam) a interesses individuais e financeiros.
A boa notícia para os fãs é que eles podem continuar assistindo os shows e ouvindo as músicas. Só não às custas de dinheiro público...

Cuidado...


Pela forma como o projeto de lei foi escrito, porém, acho prudente ter cuidados. Sem entrar em maiores detalhes, pode comportar interpretações diversas e mesmo arbitrariedades. Mas nisso não há nenhum problema. "Não??" Não... A lei não quer, nem pode, esgotar as situações concretas. Cabe a nós, cidadãos, fiscalizar seu cumprimento e, pelos meios e instrumentos democráticos, controlá-lo. Os Direitos Humanos e a Democracia não são construídos por leis, mas pelo exercício da cidadania, luta e participação populares.
Eu aplaudo a iniciativa da deputada e me orgulho da votação e aprovação pela Assembléia Legislativa do Estado da Bahia.



[1] http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/projeto-antibaixaria-e-aprovador-pela-assembleia-legislativa/#.T3JRsI9NLoc.facebook
[2] HOMEM, Wagner. Histórias de Canções: Chico Buarque São Paulo: Leya, 2009, p. 63.
[3] http://luizamaia.com/n/luiza-maia-vence-batalha-pela-aprovacao-do-pl-antibaixaria
[7] Léo Kret é também dançarina de pagode.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sobre a Solidariedade

Este texto, escrevi em julho de 2011, em e-mail para amigos. Hoje minha visão sobre a cidade de São Paulo mudou muito. Se antes sentia-me oprimido e sozinho, hoje vejo em Sampa novos caminhos, novas vozes, novos sorrisos. Pessoas engajadas, que tomam a solidariedade como norte e ideal. Bem diziam, noutro sábado, sobre como 01 ano pode mudar a gente. É verdade. 


Inquietação nº 6. Sobre a Solidariedade


Outro dia, andando pela Avenida Paulista, fui me sentindo oprimido. Moradores de rua, mendigavam dinheiro, comida ou qualquer atenção; os errantes com ares de louco gritavam com o vazio; dois rapazes de bicicleta furtaram uma moça; um homem que dormia em frente a uma agência bancária, abraçado a um cão preto buscava companhia e calor, num fim de tarde que anunciava uma noite muito fria. 
Desde que ingressei no mestrado – às vezes por essa razão, noutras não – vejo minhas conversas convergirem para um mesmo ponto. Ouço meus amigos e amigas levantarem a mesma questão, ainda que com outras palavras: "por que devo me responsabilizar pelo próximo?" Talvez em um individualismo que vem marcando nosso tempo, talvez por uma opção político-ideológica, ou por um cinismo que é cada vez mais exaltado. Não sei... O quê sei é que esse questionamento, vez por outra, volta às minhas rodas de conversa. Talvez seja reflexo da busca pela felicidade, hoje entendida de modo individualista e associada a uma autonomia individual agudizada.

Ainda em 2010, entrei em contato com um artigo de Bauman, que ele inicia com a passagem bíblica na qual Caim, questionado por seu criador sobre o paradeiro do irmão Abel, responde irritado: “Sou por acaso o guardião do meu irmão?”. Bauman não hesita em responder com um sonoro "sim" a essa pergunta e eu sigo com ele. Bauman concorda que, inseridos em uma racionalidade prática de mercado, não há argumento racional que responda satisfatoriamente à inquietação de meus amigos e amigas. Não há ganho, lucro, vantagem, aumento de eficiência ou "utilidade" em assumir o cuidado com o próximo. Muito pelo contrário, em verdade. Não há nenhuma “boa-razão” para se responsabilizar pelo outro ou ajuda-lo na busca pela individualizada felicidade.
 

Realmente, nesta lógica de mercado, não é "razoável" ou "sensato" fazê-lo, mas em uma sociedade moral (ou que se pensa moral, ou que se almeja moral, ou que se afirma moral, enfim), a solidariedade e os argumentos morais deveriam bastar, já que em sociedades complexas como a nossa, “a moralidade só tem a ela mesma para se apoiar”. 
Já escrevi um post sobre o filme “Homens e Deuses”, que vi no Cine Reserva Cultural. Trata-se de um filme tocante sobre oito monges missionários vivendo em uma comunidade islâmica, na Argélia, que cresceu ao redor e em função do mosteiro. Eles vivem em grande harmonia com essa comunidade, até que a tensão entre o exército e um grupo terrorista, ameaça sua segurança. Eles então se vêem em um dilema: abandonam o mosteiro e voltam para a segurança de seu país de origem (França) e de suas famílias, ou arriscam sua vida para continuar ajudando a comunidade? 
Como os próprios monges se organizam comunitariamente e tomam suas decisões juntos, sentam-se os oito em uma mesa para responder à pergunta e não há um só argumento racional – dentro da racionalidade orientada pela utilidade – para que eles permaneçam. Apenas um forte sentimento de responsabilidade, solidariedade e senso ético faz com que aqueles homens, incrivelmente corajosos e demasiadamente humanos, pensem em ficar. O filme conta uma história real, e não quero estragar o final. Recomendo apenas que assistam, vale muito à pena!
Bem, esta atitude, que vejo refletida em tantas pessoas em São Paulo, como os novos colegas que fiz, fez-me pensar. Com fé reforçada, respondo hoje como respondi em julho de 2011: eu fico com a solidariedade e responsabilidade social. Eu fico com elas, ainda que possa parecer ingênuo no contexto em que vivemos. Eu fico com o argumento ético, abdicando da utilidade e acreditando, ainda com Bauman que “é melhor se preocupar do que lavar as próprias mãos, melhor ser solidário com a infelicidade do outro do que ser indiferente, é muito melhor ser moral, mesmo que isso não faça as pessoas mais ricas nem as companhias mais lucrativas”. 
No célebre livro de Antoine de Saint-Exupéry, em um dado momento, se me lembro bem, a Raposa diz ao pequeno príncipe: “somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”. Eu vou além e digo que somos responsáveis por todos aqueles que, seja por qual razão for, precisam de nossa ajuda, ainda que   nem sempre possamos, ou saibamos como ajudá-los.

terça-feira, 20 de março de 2012

Elegia ao Sexo



Desejo... carnes ora trêmulas, ora tesas,
Mortas de sede e tomadas de viva fome,
Conformadas com sua única certeza:
Uma pressa sem forma, sem razão, sem nome.

Encontro que era pra ontem, ainda quando cedo
Demais. Seja ele nu, vestido de flores etéreas,
Seja de esquina, suado, sujo e de cheiros azedos,
É um sempre inadiável desencontro de pernas.

Um dormir que cansa, paralisa, arfa e desperta.
Talvez seja dança, em compasso desencontrado:
Mãos enlaçadas, olhos fechados, bocas abertas...
Olhos mirando os olhos de Deus, lar do exilado.

Sonhos de entrega e desgoverno: achar-se perdido.
Teatro de desejos, ‘pra-sempre’ que logo se esquece...
Mudez de gritos, sobre uma cama de gemidos,
Ora falso, ora amor, ora ódio, ora súplica, ora prece.

Pecado que se quis levar ao céu e afastar da vida
Que é origem e fim. Maçã do exílio jogada à sarjeta.
De quem é este rosto de olhos cerrados e boca partida,
Quem o busca tanto e, no entanto, jamais o aceita?

Thiago Marques (20/março/2012)