sábado, 29 de dezembro de 2012

Lua de hoje

Hoje a Lua é toda mulher,
Toda beleza,
Toda fortaleza,
Toda bem-me-quer.

Hoje a Lua é toda amante,
A derramar luz de seu seio,
Ela hoje é toda devaneio
Ora se deita aqui, ora está distante.

Hoje a Lua é toda bela,
Meio se mostra, meio se esconde.
De soslaio nos olha, ao longe,
Faceira, imensa e amarela.

Hoje a Lua é toda amor,
E vai se deitar serena,
Nesta noite morena,
E nos convida sem pudor.

Morena, corre e vem ver,
No mesmo céu que nos une,
Bailando, entre nuvens, impune,
Hoje a Lua é toda você.

Thiago Marques (Salvador, 29/12/2012)





quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cantiga sem esperança


Tanto violão,
Tanta miragem,
Tanta canção
Nesse fim de tarde.

Tanta ilusão,
Tanta vontade,
Tanto sim e não
Deixando saudade.

Nessas ruas baianas,
Nessas noites praianas,
Onde ande você?
Brincando com a Lua,
De pique na rua,
Com sonhos, de esconder.

Nessas noites serenas,
Nesses ventos desejos,
Em sua boca, Morena,
Ainda me guarda um beijo?

Já quase desisto de vê-la,
Não a encontro jamais...
É como se fosse uma estrela,
Em um sonho fugaz.

No seus olhos intensos,
Tantos caminhos a correr,
Nesse sorriso imenso,
Como queria me perder.

Thiago Marques (15/12/2012).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

...

Às vezes eu a encontro sem querer,
Quase por engano, em rostos pela rua.
Noutras, não a vejo, mas sei que é você
Brincando de se esconder por trás da Lua.

Às vezes eu a encontro no Sol a se pôr,
E pra não vê-la partir, peço ao Dia “espera!”.
Noutras, ouço seus passos pelo corredor,
Ou reconheço sua voz, nos tons da primavera.

Às vezes estou certo de que a vejo
Nos instantes entre um sonho e eu acordar:
Você é toda ternura, você é toda desejo,
E de seus olhos escuto, enfim, que vai voltar.

Mas nessas vezes, você me foge como areia
Que tento tanto segurar, mas não retenho,
E eu sou mar distante, olhando a Lua cheia
Que se escreve em meu peito como desenho.

Às vezes conversamos numa língua secreta,
Que em silêncio inventamos só pra nós dois.
Noutras, você me invade, pela janela entreaberta,
E é nada mais do que um perfume no ar, depois...

Às vezes, eu me perco enquanto a procuro,
Sou barco à vela, seguindo aonde vai o vento.
É quando me perco em seus olhos escuros,
Nesse oceano que transborda de sentimento.

E nessas vezes em que me perco, ...,
Eu me encontro em um tempo que se perdeu,
Um passado de certezas, um futuro que espera
Quando volte a ser tão minha, e possa ser só seu.

Thiago Marques (Salvador, 24/12/2012)

sábado, 24 de novembro de 2012

Soneto Bipolar

Sua voz alta, seu olhar perdido.
Sua certeza alucinada na vida.
Sua lágrima desesperada e partida.
Noites e dias num brado destemido.

Sua voz emudecida, seu olhar vazio.
Sua certeza perdida, desde cedo.
Sua lágrima contida por medo.
Noites e dias escondido sob o Rivotril.

Sua voz pastosa, seu olhar suplicante.
Sua certeza despedaçada sob o punho duro.
Sua lágrima caindo com medo do escuro.
Noites e dias de um pesadelo constante.

A tarde em que o abandonei e fiquei sozinho,
Um pedaço meu também ficou pelo caminho.

Thiago Marques (SP, 15/08/2012)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Infância na mira.


Em recente pesquisa, divulgada pela Carta Capital, 89% dos entrevistados se declararam favoráveis à redução da maioridade penal (para 12, 14 ou 16 anos). No debate, ouço sempre argumentos sobre a violência e a crença de que esta medida remediaria o fenômeno. Pouco ou nada ouço sobre a desigualdade e a violência sociais que estes jovens sofrem, ou sobre sua condição de pessoa em especial estágio de desenvolvimento, que deve ser respeitada e protegida com absoluta prioridade (como consagrado em nossa Constituição e respaldado nos tratados internacionais de Direitos Humanos).

Também acho curioso, a despeito destas pesquisas, que crianças e adolescentes de classe média e média alta (em sua maioria brancos), quando comentem pequenos furtos, vandalismos e violências, são encaminhados a psicólogas e, quando muito, penalizados com o confisco temporário de seus smartphones e ipads, ou restrições ao acesso às redes sociais, impostas pelos pais. E ninguém diz que isso é impunidade, ou protesta.
Mesmo em crimes bárbaros, como atear fogo em pessoas em situação de rua, eles são inocentados e tratados com todo cuidado e justiça que suas famílias podem comprar. Lembro do que escreveu uma amiga sobre as bravatas por ética no Brasil. Comentava que há uma distância entre essas exigências e a conduta cotidiana antiética, e muitas vezes criminosas, das pessoas que exigem ética na política, por exemplo. É o distanciamento entre o discurso e a prática. É o abismo entre o "eu" e os "outros". Há também o eco de uma sociedade elitista e racista, ainda marcada por sua história de escravidão, privilégios, autoritarismo, desmandos e desigualdade economicamente legitimados.

Vivemos um momento de extremas contradições (para não usar palavra mais forte e adequada). Vemos a liberdade religiosa - incluindo a liberdade de não ter religião - ser violentada nas casas legislativas e nas escolas públicas. Violência voltada, especialmente, às religiões não cristãs. Vemos os direitos sociais atacados por intelectuais e estudiosos neoliberais. Vemos as políticas afirmativas judicializadas por um “racismo democrático”. Vemos a gentrificação, genocídio e eugenia praticadas pelo Estado de direito. Vemos a homofobia, machismo e apologia ao estupro (fantasiados de “humor politicamente incorreto”) serem defendidos em praça pública, em nome de uma suposta liberdade de expressão. E vemos tudo isso ser apalaudido o que é, talvez, o  absurdo mais assustador.

Vemos tudo isso e será que nos faremos de cegos, também, com relação a esse discurso violento e amedrontado, ignorante e individualista, racista e elitista voltados aos jovens e às crianças, social e economicamente vulneráveis? Não basta vê-los sob a névoa de uma invisibilidade social, que só se dissipa nas festas natalinas, mas agora vamos responsabilizá-los como se adultos fossem, por reagirem com violência, depois de serem violentados a vida inteira?
Como disse, vivemos um momento de grandes contradições, mas ainda tenho esperança que não fecharemos os olhos, não emuderemos a boca e não taparemos os ouvidos. Tenho esperança que não ficaremos parados frente a mais uma injustiça terrível que se quer institucionalizar. Que nos mobilizaremos para garantir Justiça Social e não justiça de talião, motivada por medos e preconceitos.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Luta, substantivo feminino!

Deixo aqui minha homenagem a todas as companheiras de luta pela democracia (não apenas do PSOL, mas o texto foi escrito para estas, realmente).


À mulher, a luta deixa de ser opção. A luta é uma companheira familiar, é um caminhar que lhe é necessário, uma força à qual não pode escapar. Porque lhe é exigido todo tempo que se justifique, que se adeque, que se conforme e aquelas que dizem não a essas exigências, aprendem que a luta é o único caminho para a emancipação. Nada nos é dado. Direitos, liberdades, espaço e voz são conquistas históricas e diárias para mulher, especialmente (mas assim o é para todos nós). Em “O Segundo Sexo” (1949), Simone de Beauvoir diz que “não se nasce mulher, torna-se”. Se me for permitida a paráfrase, “não se nasce mulher, conquista-se...” 

Vamos construindo história pelo Brasil e vemos amanhecer um novo dia, sob o Sol de renovada esperança de luta democrática. Isto se dá, também, pela luta destas mulheres. Parabéns às companheiras de luta do Psol! 


domingo, 30 de setembro de 2012

Blues de domingo

No domingo, o Sol nasceu,
Todo céu se encheu de azuis.
Mas, não sei bem se sou eu,
A casa está nesse blues.

É manhã de maré rasa,
E o mar cheio de anjos nus.
Eu não sei o que se passa,
A casa está nesse blues.

Fazem churrasco aqui ao lado,
E a mangueira come luz.
Mesmo co’o banquete armado,
A casa está nesse blues.

Ouvindo o rádio de pilha,
Lembro a valsa que compus.
Desisti da redondilha,
A casa está nesse blues.

Não é época, mas percebo,
Um cheiro bom de cajus
No ar. Mas que desassossego,
A casa está nesse blues.

A brisa fresca faz festa,
Entre as folhas que conduz.
Sigo as folhas, é o que resta...
A casa está nesse blues.

Nem violão, nem Tulipa,
Nem Oxalá, nem Jesus,
Meu peito mal acredita,
A casa está nesse blues.

Canta Billie, canta Nina,
Êta, como Etta seduz,
No som, minh’ alma se afina,
Que a casa está nesse blues.

Thiago Marques (Salvador, 30/09/2012)









sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Tempo e Loucura

Pintura de Marcos Cotta - Museu Imagens do Inconsciente
São quatro horas, da tarde de ontem, em canto nenhum.
Antes que eu acorde, que tu acordes, antes dele acordar,
Na tarde de segunda, amanhece domingo, pra Lua passar
E levar os restos do desencanto dos dias, um a um.

É meia-noite, é Lua cheia, é a hora “h” há séculos atrás.
Os olhos percorrem o relógio, que corre sem sair do lugar.
Todos correm e, sem pressa, mato tempo pra não me matar,
Que meu passa-tempo é pensar que, agora, já tanto faz.

Foi no tempo que eu chorei, quando sorri e respirei fundo,
Pra sentir o tempo me encher os pulmões de saudade.
Saudades de amanhã, d’onde não fui, agora muito tarde.
Meu tempo, que ninguém conta, ignora o tempo do mundo.

Quantas décadas cabem no meu segundo, nessa mistura
Que não se entende, e nem quer. Meu tempo desobedece
Relógios, calendários, previsões, correrias, mas prevalece.
Ele floresce, anoitece, entorpece e se esvai na altura.

Meu tempo é um tempo de vórtice e candura,
Meu tempo, nem é tempo, é mais gemido e prece.
Não sei bem o que parece, quando o tempo adormece,
Porque meu tempo é eternidade, o tempo da loucura.

Thiago Marques (Hospital São Rafael, Salvador, 28/09/2012)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tempo


As horas adormecem e o tempo desacelera
Enquanto, entre meus olhos, você caminha.
Estou certo que estive aqui antes em minhas
Noites de saudade, minhas tarde de primavera.

A chuva cai em câmera lenta e espera
A tempestade que, inevitavelmente, se avizinha.
Mas você segue alheia e austera, entre as linhas
De minha história de versos, sonhos, quimeras.

Quantas vezes eu já bebi desse mesmo vinho,
Quantas vezes eu desenhei esses mesmos versos,
Como quem quer recriar o passado sozinho?

Com tintas e liras, refazer os passos do universo
Em direção ao início que se perdeu no caminho,
Um vitral de memórias, suspiros e beijos dispersos.

Thiago M. (São Paulo, 13/08/2012)



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Medo de amar


Fugindo dela para correr em sua direção,
Com medo de seguir sempre sozinho,
Seguindo, sem saber, o mesmo caminho,
Perseguindo sempre a mesma ilusão.

O peito que abre, o olhar que mira longe
Alguém sob a chuva que espera ser acolhido.
A alma que se expõe à espera de sentido
Para esperanças, que no seu íntimo esconde.

É o sonho que permanece eterno desejo,
A busca pelo conforto, enfim, d'outra mão
Que nos alise a fronte e roube um beijo.

É o medo de abrir-se e só encontrar dor,
Pelos caminhos incertos do coração,
A eterna busca e o infindo medo do amor.

Thiago Marques (São Paulo, 07/08/2012)

domingo, 29 de julho de 2012

Eu a vi nas fotos, instante que alguém roubou do tempo,
Eu a vi tão linda como nunca, tão linda como sempre,
Pintura do passado, colorida com tintas do presente,
Falando à alma esquecida, lembrando a todo momento.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

Poema para noite

A noite passa como um gato preto
Assustado pela janela de meu quarto,
Tropeça bêbado de si mesmo e farto
De lua. Acelerado coração no peito,
A noite passa como um gato preto.

Silenciosa, faceira e desatenta,
A noite caminha sem olhar pra trás.
Só eu me lembro, já tarde demais,
D'outra noite que passou lenta,
Levando consigo a Lua ciumenta.

A noite passa como vento frio
Levantando folhas, sonhos, lembranças,
Suspiros, mãos-dadas e esperanças.
A noite passa tecendo seu fio,
Amortalhando meus olhos vazios.

A noite passa, sem querer saber de dia,
Ignorando a manhã e o Sol narciso,
Desafiando moralistas sem sorriso,
A noite passa dançando, alegre e baldia,
Roubando-me o sono e sonhos do que seria.

A noite passa morena, deixando um perfume
De saudade no rastro de seu caminho.
A noite passa como uma música ou um carinho,
Enquanto eu, sozinho, recito um queixume,
A noite passa morena, deixando seu perfume
De saudade.

Thiago Marques (São Paulo, 22/06/2012)




quarta-feira, 20 de junho de 2012

E por falar tanto em Amor...


Eu a vi a caminho de algum canto.
Íamos distraídos, naquele fim de dia,
Sob uma chuva fina que, então, caia,
Distraídos, sem pensar, sem espanto.

Eu a vi sentada sobre sonhos desfeitos.
As pernas encolhidas sob a camiseta suja,
Braços contendo os anseios d’alma, cuja
Luz transbordava dos olhos para o peito.

Transbordava como aquela chuva fina,
Silenciosa e clara, sobre a pele tão escura,
Dos olhos vermelhos, uma lágrima pura,
De uma tristeza, que já foi uma menina.

De um esquecimento que já foi pessoa,
De um estorvo aos olhos que já olhou
Ela própria o futuro e pensou em amor,
Em carinho, em sonho, em riso à toa.

Daquela lágrima eu quis tirar um sorriso,
Para aquela solidão eu ser um abraço,
À indiferença geral, quis destruir o espaço,
Para a chuva, queria um grito sem aviso.

Escrevo por calma, mas minh’alma é aflita.
Fico nela esquecido, enquanto lembro dela.
Sentada sozinha no chão daquele viela,
A lágrima que não chorei, a palavra não dita.

Ninguém mais a viu, acho que mais ninguém
Quis olhar e ver seu medo refletido na sorte
Dela. Eu quero ainda voltar e abraça-la forte
Dizer que a amo, choro com ela e a quero bem.

Quis perguntar tolamente, por que você chora?
Mas, em seu lugar, quem não choraria, então?
Quis chega-la pra perto, guarda-la no coração,
Mas como todos, tudo que eu fiz foi ir embora.

Thiago Marques (São Paulo, 20/06/2012)





domingo, 17 de junho de 2012

Desculpas para um velho Amor


Se a noite é morena
E a lua paira alta,
Se a brisa nos acena
Cada dia de sua falta.

Se a calma se apequena,
E o coração nos salta,
Se a vida nos encena
A farsa pela qual se pauta.

Se o coração inquieto
Recita o mesmo nome,
Se o tempo do afeto
Para o Tempo e me consome.

Se uma lembrança é feita
De um terço de uma só prece,
E a reza não aceita
Esquecer o que gente não esquece.

Se o Amar tem olhos castanhos,
E o peito insiste nessa ladainha,
Convenha que não é tão estranho
Saber-me seu e sonhar você tão minha.

Thiago Marques (Sampa, 17/06/2012)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma parte morena de mim


Uma parte morena de mim,
Nunca lembra que a esquece
E se a noite recomeça enfim,
Diz seu nome feito uma prece.

Porque parte de mim é sonho,
Outra parte 'inda não sei.
Parte sabe meus pecados,
Outra parte perdoei.

Parte se perde, outra só me invade,
Parte de mim é fogo, parte sente frio,
Parte é a mais crua verdade,
Mas noutra parte não confio.

Uma parte morena de mim
Nunca lembra que a esqueceu,
Pois a parte que era dia
Ainda não anoiteceu.

Porque parte de mim é vida, 
Outra parte pereceu,
E a parte que não é sua
É a parte que não sou eu.

Uma parte morena de mim,
Caminha de mãos dadas com você,
Outra parte segue sozinha,
Esquecida de te esquecer.

Parte leva a cruz, parte é leveza,
Parte de mim queria, o que a vida não quis
E se vestiu toda de tristeza,
A parte que queria ser feliz.

 Thiago Marques (São Paulo, 12/06/2012).


São Paulo, 11 de Junho de 2012



São Paulo, 11 de Junho de 2012
Eu, madrugada acordado em suor.
Manhã de trovoadas,
Tarde de brisa gelada
E outra madrugada de névoa e pó.

Eu só quis m’enterrar no cobertor
Afogado em meus sonhos.
Lembranças, eu suponho,
Talvez esperanças d'um velho amor.

Mas encontro à tarde conversa boa,
Com café bom, sorrisos
E olhares indecisos.
Na volta sou só suspiro e garoa.

Tempo que é pai, Tempo que faz o quê?
Sonho que vai, onda que traz você...
Thiago Marques 
(Sampa, 12/06/2012)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O segredo de meus olhos


A Saudade tem imensos olhos verdes de mar,
Olhos profundos, imprevisíveis e inconstantes...
Olhos fugidios, que dançam no horizonte distante.
A Saudade tem olhos que me põem a naufragar.

O Pesar tem olhos de céu, acinzentados e azuis,
Como em uma manhã qualquer de qualquer dia,
Quando o vento encobre de nuvens, o sol que luzia.
O Pesar tem olhos que carrego como uma cruz.

O Ciúme tem olhos castanhos de tempestade
Que relampeja, troveja e se desfaz em água.
O Ciúme tem olhos que me inundam de mágoa.

Mas o Amor é confidente e fiel. Ele é espera e eternidade.
Mais que a paixão, o Amor tem olhos negros profundos,
O Amor tem olhos que abrigam todos os olhos do mundo.

Thiago Marques Leão (São Paulo, 07/06/2012)







domingo, 27 de maio de 2012

Utopia solitária


 

Utopia solitária

Caminho entre dois tempos que há em hora alguma.
Em um deles me desenho, no outro sequer me esboço,
Um deles me eleva alto, no outro me atiro sem esforço
Porque é mais doce a onda do que a espuma.

Por isso, à noite, gosto de esperar a alvorada
E perseguir sonhos que são sonhos e nada mais,
Redesenhar na areia os versos que a onda desfaz,
E conversar horas com a Lua sobre a madrugada.

A verdade é que ando cheio de andar sempre vazio,
Esses beijos só de corpo vão me roubando a alma,
Esse desprendimento do essencial me tira a calma
Nesse fogo-fátuo que brilha em um tom vago e frio.

Por isso sigo caminhando entre ruas que foram jamais,
Incendiado de sonhos e farto de toda essa paz.

Thiago Marques (27/maio/2012)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um trem até nós dois



Esse é um poema que não precisa responder,
Nem precisa corresponder, só precisa escutar...
É um poema que se escreve quase sem-querer
Cujas palavras vão sentando em qualquer lugar.

Nem é bem um poema, é mais uma lembrança...
Uma dessas imagens que nascem de um cheiro,
Que vêm junto com uma música, ou uma dança,
E se compõe aos poucos, sem nunca estar inteiro.

É uma memória boa de um tempo sem eira nem beira.
De ouvir seu bom-dia, de meios poemas, de eu te amo's,
Cair da cama, quando você caia no sono, a semana inteira, 
E repetir aquelas juras e promessas que nós nos juramos.

Seguir os trilhos até um tempo que só nós sabemos quando
É, tempo d'uma cegueira de amor, que só enxergava você.
Então, descer n'última estação e encontrá-la me esperando:
Um sorriso no rosto, um beijo na boca e nada mais a dizer.

Thiago Marques, Sampa, 10/maio/2012.




terça-feira, 17 de abril de 2012

Justiça cega... Ou a cegueira da justiça?


Quem nunca ouviu que a Justiça é cega? Sua representação como uma mulher, segurando em uma mãe a balança e na outra a espada, com os olhos vendados, é herança romana que adotamos. Idealmente, a Justiça de olhos vendados simbolizaria uma justiça imparcial, que não olha sobre quem recai seu julgamento, apenas julga. Os três elementos queriam se harmonizar: a balança que busca o equilíbrio e a igualdade, a espada que aplica o direito pela força e a venda sobre os olhos da Justiça, prevenindo-se de qualquer privilégio.
Essa ideia romana e romântica de Justiça, ao meu ver, há muito não deveria ser meta de nossa sociedade. Primeiramente, somos uma sociedade desigual - sob diversos aspectos - e o ideal de Justiça só será promovido, enquanto considerarmos o peso de nossa história e de nossas injustiças sociais, que devem entortar essa balança. A ideia de um direito garantido pela espada também me incomoda demais, porque a espada tende a cortar apenas aqueles que deveria proteger: aqueles, social e historicamente, vulnerabilizados. Finalmente, vemos diariamente que a venda representa mais a indiferença e prepotência dos juristas, que preferem não ver a realidade social, do que um pressuposto de imparcialidade.  
Infelizmente, tivemos exemplos claros disso em SP, nos últimos meses. Temos visto violências terríveis sancionadas pela Justiça paulista, como ocorreu em Pinheirinho, em 22 de janeiro, quando a espada da PM expulsou violentamente 1,5 mil família pobres de seus lares, confiscando seus bens e deixando-os sem caminho aparente a seguir. A justiça tem razões para abrir os olhos e chorar, pelos crimes que sancionou nesse episódio. Hoje, a Justiça paulista fez uma nova vítima fatal:  Ivo Teles dos Santos (69 anos),  brutalmente espancado por PM's durante a invasão da comunidade de Pinheirinho, faleceu em função da violência que sofreu.


Recentemente, voltamos a ver que a Justiça cega e de espada nas mãos escolhe quem vê e que súplicas ouve. Por regra (ou talvez por camaradagem entre poderes, velhos conhecidos, desde Montesquieu), parece que só escuta as súplicas do Poder Executivo (e do poder econômico, que já é amigo da família desde muito antes do filósofo parisiense). Em março deste ano, o Tribunal de Justiça de SP condenou o Sindicato dos Professores do Estado a multa no valor R$ 600.417,18, além de danos morais no montante de 1,5 milhão e, pasmem, proibiu perpetuamente de realizar qualquer manifestação que possa atrapalhar o trânsito. Ação foi movida pelo Estado de SP, por força da greve dos professores em março de 2010.
São tantos os absurdos dessa decisão, desde se caçar definitivamente direitos políticos de uma coletividade, garantidos constitucionalmente, ao cinismo de querer convencer alguém de que a decisão é motivada por transtornos ao trânsito.
Ainda que fosse, diz o art. 5º, XVI, da CF/88 que "todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente".
Esse aviso prévio (veja que só é exigido aviso, não autorização) é justamente para que a Administração faça os arranjos necessários para que a manifestação não cause transtornos à cidade. Se houve engarrafamentos, é responsabilidade da Municipalidade, ou do Estado, que não remanejou adequadamente o trânsito.
Mas não é essa a questão. O quê eu quero é denunciar a ação coordenada entre os Poderes em São Paulo (ou que, no mínimo conta com sua cumplicidade), para impor à força a vontade de uma pequena elite política e econômica, às custas de uma opinião pública desinformada e manipulada pela mídia, e da criminalização de movimentos sociais e de trabalhadores organizados.
O exemplo mais recente desta estratégia covarde e cruel, ocorreu no dia 10/04, quando professores da rede pública municipal de SP foram contidos pela PM enquanto exigiam do presidente do sindicato (Claudio Fonseca, também vereador do PPS, base aliada do prefeito Gilberto Kassab - PSD), que não encerrasse unilateralmente a greve, que contava com apoio da maioria da assembléia. Além de assistir a essa nova ação da PM, fui obrigado a ouvir certo apresentador da BAND dizer que a PM interveio, porque os professores queriam linchar o presidente sindical.
Gostaria de uma Justiça real, com os olhos bem abertos, sem espada na mãos, que prefira o diálogo e a mediação, no lugar da força, e que ouça todos aqueles que têm a obrigação de proteger. Não uma justiça que escolhe quem atende, que interesses protege e que direitos garante: suposto crédito como mais importante que moradia e dignidade humana (como em Pinheirinho) e a piada (mentirosa) de se caçar o direito à livre reunião e manifestação para fins de pacíficos, porque neguinho está reclamando de engarrafamento e de que vai perder a novela das 8 horas.