terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O que me seduz


O que me seduz
É essa delicadeza intensa,
Essa humanidade imensa,
Esses olhos mergulhados em luz.

O que me encanta
É o perfume desse desejo,
São os detalhes que eu vejo,
É o reflexo inevitável que m'espanta.

O que me cativa
É esse imenso sorriso,
É o querer que brota sem aviso,
É essa vontade, essa coragem viva.

O que me prende
É o mesmo que me liberta,
É essa divindade feminina discreta,
Com a qual você me rende.

O que toma e cerca minh’alma
É esse te bem-querer que invade
Casualmente, no meio da tarde,
Numa inquietude cheia de calma.

Thiago M. (27/12/2011)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Soneto de Natal


Há um retalho de lembranças no varal
E uma revoada de risos no corredor.
Há também a nostalgia de um amor
No ar da manhã que nasce, porque é natal.

Jantares em família, presentes de namorados,
Crianças envoltas em sonhos, como se o tempo
Parasse para nos ver passar por um momento,
Antes de o futuro fazer presente o passado.

É tempo de pôr as tristezas e o sorriso em dia,
É tempo de realizar e perder nossos sonhos,
Como esses versos esparsos que em vão componho.

É dia de abraçar amigos e lembrar com alegria
De amores que não voltam mais, porque, afinal,
O ano finda e um novo começa, depois do Natal.

Thiago Marques Leão (23/12/2007).

sábado, 17 de dezembro de 2011

Adeus, meu primeiro amor

Ontem eu me despedi de São Paulo, com um "Até janeiro!". 2011 foi um ano incrível para mim em Sampa. Fiz grandes amigos, conheci pessoas maravilhosas, cresci e amadureci muito. Aprendi a ficar comigo mesmo, aprendi limites e potenciais que desconhecia em mim e me aproximei muito mais de minhas metas.
Despedi-me de São Paulo, assim, levando saudades dos amigos e da própria cidade. De tudo, carrego comigo as feiras de artesanato e as de frutas, o barulho dos carros, os artistas mambembes, as ruas, os parques. Levo, também, uma noite de Natal em São Paulo. Cedo para o Natal, eu sei... Mas ficou em minha cabeça. 


Saia do filme "Adeus, meu primeiro amor". O título original é "Un amour de jeunesse", um amor da juventude. Ambos os títulos retratam bem o filme, que é intenso, com diálogos e personagens muito cativantes. O pano de fundo, ora urbano e confuso, ora idílico, de uma França do início da década passada abriu as portas para um história quase universal, com a qual é difícil não se identificar. Nesse amor da juventude, como não poderia deixar de ser, tudo é vivido como em um mergulho constante, profundo e intenso, no qual às vezes nos sentimos abandonados, em queda livre. Notros momentos, porém, somos acolhidos pelos braços nos quais nos atiramos. O filme mostra a jornada entre este amor de criança e o encontro com o amor maduro. Retrata bem, ainda, como é difícil dizer adeus a esses sonhos e amores de infância.
O filme, realmente, me envolveu e me levou a passeio, por ruas velhas e esquecidas na memória, trouxe à tona rostos de há muito, e sentimentos guardados. Na história que seguia na tela, fui junto por histórias minhas.


Era início de madrugada, mas quando saímos do cinema, entramos em uma Av. Paulista movimentada, pela proximidade das festas de fim de ano. Vastamente iluminada, com casas feitas de brilhantes e ornadas, e árvores abraçadas por pequenas luzes brilhantes. Uma Av. Paulista cheia de estrelas no céu e estrelas no chão. 
A noite estava fria, mas as pessoas passeavam em família, conversavam, sorriam. Quis caminhar, seguir pela noite, que já era madrugada. Olhando as decorações de natal e me sentindo meio aéreo, mergulhando no romantismo juvenil e saudoso que o filme trouxera. 

Em um dado momento, olhei a Lua, que de repente, se deixou no céu, como esquecida, parafraseando Vinícius. Estava linda, "boiando no céu imensa e amarela". Um leve véu de nuvens, translúcido e leitoso, deitava-lhe sobre os ombros e meus olhos se enamoraram. Foi uma noite muito gostosa.
Esta noite, de 10/dezembro/2011, vou levar comigo como lembrança e despedida de São Paulo. Levo a lembrança de passear na sua garoa, e me despeço do estranhamento e do fascínio, e do desejo e da saudade, e do bem-querer e da revolta, e do encontro e desencontro, e de não ter me visto refletido em seu espelho de Narciso no início, e de tudo tão diverso, que nunca conviveria assim em outro lugar que não São Paulo. Parti para Salvador - meu amour de jeunesse - dizendo à cidade de São Paulo, onde me encontrei mais maduro, "Adeus, meu primeiro amor, em Janeiro eu volto" .



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Explode Coração


Não lembro exatamente como conheci Gonzaguinha, mas lembro de sempre tê-lo escutado. Apesar de chicólatra assumido, Gonzaguinha embalou mais histórias a dois minhas do que Chico (por qualquer razão, Chico me acompanhou mais em histórias sem meio e final feliz, até hoje acompanha). 

Lembro de um fim de ano em Lençóis-BA, em que formamos uma imensa roda de violão, perto da praça. Eu tinha deixado o curso de Letras e, há mais ou menos quatro meses, não fazia nada além de tocar violão em casa e lamentar. Então, tinha um certo repertório (Caetano, Roupa Nova, Gil, Vinícius, umas internacionais como More than words e tal). Era início de noite, a roda foi se formando aos poucos, lembro bem de um hippie que se animava demais com as músicas e de algumas amigas, e de ouvir um senhor, que integrou a roda (acho que o pai de Ticiana Falcão) tocar "E a vida, e a vida o que é? Diga lá meu irmão" no violão, com aquele jeito seresteiro de tocar. Voltei para casa cantarolando Vinícius, "eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia".

No ano seguinte, com minha primeira namorada séria, adorava tocar no violão "espere por mim morena, espera que eu chego já", até porque Morena, era como eu gostava de chamá-la. Também foi dessa época meu encontro - como quem se vê refletido no espelho pela primeira vez - com "um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas" e, finalmente, "eu gosto, quando 'ocê faz o que eu gosto, quando 'ocê faz o o que eu faço em 'ocê", cuja simplicidade e o dengo da música me embalavam demais...

Antes disso tudo (a linha do tempo desta crônica está completamente atropelada), um grande amigo de colégio, Lúcio, me disse um verso, enquanto estudávamos literatura. Eu era apaixonado pela matéria (não à toa prestei  letras no vestibular 02 anos depois) e nossa professora era a saudosa D. Edna. Eu explicava o que era uma metáfora, lembro bem, e falava sobre um paixão da época - Julia - e Lúcio, sempre muito inteligente e violonista, deu como exemplo "quero mais que a vida entre assim, como um sol desvirginando a madrugada". Achei aquela imagem PERFEITA. E, na verdade, é desta música que eu queria falar: "Explode Coração".


Hoje, conversando com minha amiga Neida, lembrei dessa música. Diga-se que eu, inclusive ainda tinha dúvidas sobre a autoria (confesso meio envergonhado, não sabia se era Gonzaguinha ou Caetano)  e, quando Lúcio citou (no final dos anos 90), achei que fosse de Chico. Explode Coração é algo de genial... A melodia casa perfeitamente com a letra, e a música vai nos encaminhando passo-a-passo, a seu desfecho.  O encadeamento de versos e de verbos é brilhante. De início, no infinitivo, que não nos traz para tempo nenhum. A imagem parece flutuar, como um sentimento universal e reconhecível por todos, mas que só introduz a música, sem situá-la, necessariamente, em um passado, presente ou futuro: "chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar".

Daí, introduzido por essa imagem plástica genial, que é "quero mais que a vida entre assim, como um sol desvirginando a madrugada", o verbo passa para o gerúndio, indicando uma ação em movimento, fazendo com que a música o tempo todo nos traga para o "agora". O sentimento aflora, transborda porque somos transportados para o agora da música, engolidos no caminhar cada vez mais intenso da letra: "Quero sentir a dor desta manhã nascendo, rompendo, rasgando, tomando, meu corpo e então eu chorando, sorrindo, sofrendo, gostando, adorando, gritando". 

A letra e a melodia, enfim, a canção nos toma pela mão e nos leva correndo, parece que vamos vencendo portas e barreiras que protegem nosso coração, atravessando multidões, como naquele poema de Castro Alves "vamos meu anjo fugindo, a todos sempre sorrindo". A emoção borbulha, levados pela música, nós que tentávamos dissimular, disfarçar e esconder, começamos a sentir que algo está nascendo, rompendo, rasgando, tomando nosso corpo e então, "não dá mais pra segurar, explode coração!


Há algo de muito sensual nessa música também, não é? Sensual porque apela para os sentidos, mas sensual naquele outro sentido que nós pensamos primeiro, também.

Neida comentou, que seu coração já explodiu antes, mas ela colou e hoje ninguém diz que é colado. Como na música de Ivan Lins (outro que me leva longe) "O amor junta os pedaços, quando um coração se quebra. Mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra. Fica tão cicatrizado, que ninguém diz que é colado". Bem, mas lembrei disso agora. Lá, respondi a Neida: Acho que o coração que quebra e a gente cola bate melhor. Bate mais gostoso, mais melodioso. Coração que não quebrou, ainda, é feito violão com corda nova: desafina demais. Samba-canção bem tocado, só depois do coração explodir...


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Amor pra toda vida


Quero um Amor pra vida toda e mais.
Um Amor que renasce todo dia,
Todo dia descobre outra alegria.
Amor que desconhece o tempo, assaz.
  
Um Amor que se apaixona novamente
Todo dia e que assim se redescobre
Novo no mesmo amor, ‘inda mais nobre.
‘Inda mais certo desse amor que sente.



Não quero o amor que é fogo sem raiz,
O amor que segue o tempo, seu senhor,
Mas o Amor que envelhece em paz, feliz.


E quando à tarde, sobre o mar se pôr
O Sol, levando junto o que fiz,
Restará ainda vivo meu Amor.

Thiago Marques – Salvador, 05/01/2007.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobre Gaviões e Passarinhos




Gaviões caçam. É sua natureza, razão e sustento. E eles normalmente são muito bons nisso, desde que não sejam surpreendidos, em pleno voo, por uma presa mais esperta que (às vezes apenas por sua sombra) antevê suas intenções de ave de rapina.
Os passarinhos não caçam. Os passarinhos fazem ninho, cuidam dos ovos, limpam as asas de suas parceiras e as defendem, fazendo o papel de isca quando serpentes, e outros predadores, ameaçam seu ninho com filhotes, ou ovos.
Gaviões são bem acomodados, o que pode parecer contraditório. Mas uma vez estabelecida uma área de caça, enquanto tiver presas suficientes, dificilmente o gavião sairá de sua zona de conforto. Movido por seu instinto de rapina, não vê muita razão em   mudar seus hábitos. "E o falcão peregrino?" alguém pode perguntar. Esclarece-se que isto é uma metáfora, não um ensaio de ornitologia (ciência que estuda as aves).
Os passarinhos, por sua vez voam para o Sul, eles gostam de estar juntos. E por isso, saem em revoada sempre que podem. Quando cai a tarde, voam de árvore em árvore, como se fossem um infinito contínuo de  pequenos pedaços gorjeantes de sonhos, buscando o melhor lugar para dormir. Passarinhos gostam de dormir juntos e se aquecer. Se os gaviões caçam sozinhos, os passarinhos gostam de se conhecer. É porque se conhecem, que em suas revoadas, os passarinhos dançam em perfeita harmonia e, juntos, voam como se um só passarinho fossem, num passaredo.



Gaviões voam alto e, talvez por isso, sozinhos. Passarinhos sabem voar também, mas gostam de voar entre flores, entre árvores, de tocar as ondas do mar com a ponta de suas asas e de deslizar entre prédios, até. Não são de rapina, gostam de romãs doces, mangas amareladas e frutas-do-conde quando começam a abrir. Gaviões caem certeiros sobre a presa, como flecha que abate tudo em seu caminho. Mas não o passarinho. Passarinhos cantam, assobiam melodias. Passarinhos seguem sonhos e às vezes se batem contra vidros fechados, buscando alcançar seu próprio reflexo, transformado em miragem. 
Gaviões são pragmáticos e eficientes, passarinhos são românticos e sonhadores. Passarinhos provavelmente gostariam de Chico Buarque, Vinícius de Morais e Gilberto Gil. Achariam graça de Gonçalves Dias (mas nunca ririam na frente dele para não lhe machucar os sentimentos de exilado). Os passarinhos que voam à noite, provavelmente são apaixonados pela Lua. Os que voam durante o dia esperam ansiosamente o cair da tarde, para voarem juntos e adormecerem aninhados.
Gaviões voam alto no céu e abatem presas. Os passarinhos, aninhados na copa de uma mangueira ou pé de Jabuticaba, sabem o paraíso de estar apaixonados e encantar com seu canto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Imersão

Outro dia, vi o post de uma amiga no Facebook, falando sobre uma pedagogia que trabalha com a imersão, com o mergulho naquilo que se está fazendo. Nesta escola (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ciepysrwBpQ) os alunos têm, durante um mês, aulas de uma mesma e só matéria (geografia, história, matemática, etc.). O professor Bruno Andrade explica que "é como também se fosse uma viagem. Como alguém que viaja para algum lugar, vivencia aquilo profundamente, e depois se distancia".
Você pode não lembrar o que almoçou ontem, mas vai lembrar das impressões ao caminhar por uma rua de casas antigas, ou do cheiro da comida naquele restaurante italiano, ou de um pôr-de-sol na praia. Não só porque mergulhou profundamente naquela viagem, mas porque tudo isso teve significado. Possivelmente como resultado, também, do mergulho.



Eu fiquei pensando nisso... Parece que não temos muito hábito de fazer essa imersão mais com nada. Queremos (e somos exigidos a) fazer uma série de coisas de uma só vez. Estamos lendo um livro, mas a TV está ligada, o celular está ao lado e pode (provavelmente vai) tocar a qualquer instante, alguém está conversando na sala ao lado, o computador está no Facebook e de tempos em tempos olhamos de soslaio se há alguma novidade, enquanto fingimos conversar com alguém... Enfim. Dificilmente há imersão naquilo que estamos fazendo.
Eu lembro de ler um livro sobre o Japão medieval chamado Musashi. Eu ficava impressionado com a concentração e a verdadeira arte que era dedicada a coisas que, para nós, são banais. O preparo do prato, o treino de espada, a escrita... A ritualização destas práticas levava não a uma  tradicionalização ou imutabilidade mas à possibilidade de significado, de sentido. Assim, podemos vivê-las, não apenas superá-las. Então, o plantio do arroz tem um um ritmo, uma razão de ser. A cerimônia do chá é lenta, calma e embebida em significado.


Nós, por outro lado, estamos sob a égide da produtividade, da eficiência. Estamos jantando com alguém e pensando no que fizemos hoje, no que faltou fazer e no que podemos fazer amanhã. Estamos conversando com amigos na sala, com o notebook no colo e olhando vídeos no youtube. Eu estou tocando violão ou mesmo estudando, mas estou pensando no projeto, cuja metodologia preciso melhorar, mas não vai dar tempo, porque preciso ligar para minha mãe, mas antes, espero que minha orientadora dê resposta da reunião que estou tentando marcar. Há uma esquizofrenia qualquer na forma como fazemos as coisas. Queremos fazer tanto, que acabamos não fazendo, realmente, nada.

Que bom seria, eu imagino, fazer as coisas como quem medita. Observar com calma o caminhar da mão que escreve; o movimento da boca que fala; os cheiros da comida que cozinha; o ritmo da respiração, os passos que se sucedem e o que há ao longo do caminho que se trilha.

Fazer de cada experiência uma viagem, mergulhar nas páginas do livro que se está lendo, passear nas notas da música que se escuta, prestar total e completa atenção à pessoa com a qual se conversa. Fazer uma coisa de cada vez e buscar compreender o significado do que se está realizando. E nesse mergulho esquecer-se de tudo mais, delicadamente.