sábado, 5 de novembro de 2011

Sobre o discenso

Talvez uma das coisas que mais causa desconforto, é o diverso. Se por um lado, a diversidade pode encantar, fascinar e seduzir, é certo que também potencializa o conflito. Encarcar o diferente, aquilo que lhe desconcerta, irrita e contraria, é difícil. Não sei se isso está relacionado à crescente individualização, afinal quando mais pensamos em nós mesmos, quanto mais nos isolamos, mais nos habituamos a nossas verdades apenas. O diferente é causa de sentimentos intensos, como raiva e medo. Estamos tão enraizados em nossas verdades, no mais das vezes elas também enraizadas em ilusões, que nos deixamos perder nelas. Perdidos, nem sempre reagimos bem ao que discordamos. É uma crítica que faço a mim mesmo.
Quero compreender a busca por um entendimento discursivo, pelo confronto racional de idéias em busca de verdade e entendimento. No entanto, fico muito frustrado porque não consigo colocar isso em prática. Não consigo me fazer entender frente a quem não quer ouvir, quer apenas falar. As verdades parecem dadas a algumas pessoas parecem não ter qualquer interesse em escutar.
De toda sorte, eu escuto e tento imaginar se não estou eu errado. Mas no fim, não é isso que me aflige. O que me aflige é a dureza do julgamento, é a certeza inabalável, é a facilidade da condenação, é o ouvido surdo, o olhar insensível e o coração distante.
Mas quem sou eu para julgar? De um lado, eles não querem ouvir, mas de outro eu me entendo certo. A diferença talvez, seja apenas que eu não grito e, em um espaço de tantos barulhos dissonantes, não me faço ouvir. Mas incorro no mesmo erro... Eu me exalto, me ofendo, sinto-me agredido e agrido. É este o meu maior engano.


No momento em que respondo de forma rude e autoritária, incorro no mesmo engano de quem aponta o dedo, levanta a voz, disfere um golpe de pulsos cerrados. Longe de casa, em outro Estado e convivendo com pessoas tão diferentes, a vida passa a ser um exercício de tolerância e auteridade. Não me posso aceitar, quando faço tudo aquilo que tanto critico. É a intolerância com o diferente que leva às violências contra homossexuais, contra outras religiões e posições ideológicas, por exemplo. São formas exacerbadas de intolerância com o diverso, não se comparam à situação que experimentei, mas é também nas pequenas ações, que os homens mostram sua grandeza.
Espero o dia em possa ouvir e manter a calma. Não sentir meu coração disparar e as mãos tremerem, ao som do que considero intolerância, soberba e violência discursiva. Espero a maturidade de ouvir isso e manter a serenidade necessária a responder com ponderação e justiça. Não deixar jamais de me indignar, mas saber ouvir e responder.
Estou muito longe de ser o homem que espero ser. Estou muito longe de ser herdeiro da Terra. Estou muito longe do que escreveu Kipling, em seu poema "Se". Conheci Kipling em um caderno de notas que herdei de meu padrinho Zeca. Nele, transcrito a mão, o poema traduzido por Guilherme de Almeida, que dizia: 

Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,

em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,

a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!
(Rudyard Kipling - Tradução de Guilherme de Almeida)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poema de Busca e Sonho nº 02

 

 Soneto de Busca e Sonho    

Não quero um rosto apenas. Eu procuro
A boca onde se encontre a minha sempre,
Um olhar sensível, humano e inteligente,
Em cujas águas encontre meu porto-seguro.

Alguém que me alumiassem, se no escuro
Minha alma se perdesse de repente,
E, em silêncio, soubesse quanto sente
O presente, quando não se faz futuro.

Eu quero as promessas do Amanhã...
Eu tenho comigo esse sonho constante
De vê-la trazer a vida à luz da manhã,
De ver-me recriado em um novo instante,
Em uma nova centelha de vida e de amor.

Ouvir na sua respiração delicada o som
Das primeiras palavras vindas sem aviso,
E ser acordando para um sonho bom
Nascido, assim, no infinito de seu sorriso.

Thiago Marques
São Paulo, 04/11/2011