sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Canção do Exílio, na Terra Natal


            Essas vastidões me sufocam demais.
            As terras em que nasci me são estranhas,
            A rua em que cresci me corrói as entranhas
            E a alegria que conheci, não há mais.

            Meus olhos buscam olhos diversos,
            Terras distantes, horizontes, climas amenos,
            Rosto novos, vozes calmas, beijos serenos,
Que povoem de sonhos meus versos.

Devo partir, me perder, me encontrar,
Quero de novo, pela primeira vez feliz,
Sorrir e, sem saber por que, me apaixonar.

Preciso, somente uma vez, viver enfim,
Junto a meu povo, fazer o que nunca fiz,
Numa terra distante, tão dentro e fora de mim.

Thiago Marques (Salvador, 14/04/2009).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Insônia nº 01


São Paulo é, em geral, movimento e barulho. Nas grandes avenidas (Rebouças, Paulista, etc.), o som dos carros e suas buzinas, das pessoas e seus telefones celulares sempre em uso, dos pequenos grupos apressados conversando... São também sons alegres, de risadas, de músicos e artistas de rua, de movimentos, passeatas, manifestações.
Aqui onde moro, no Butantã, os sons de sempre se confundem com cães ladrando, carros de pamonha e verduras, sons de carro... De um jeito ou d'outro, São Paulo me parece sempre borbulhar, sempre ter algo a dizer, ainda que nem sempre eu consiga compreendê-la.
Agora, porém, às 3h40min, da madrugada de segunda-feira, São Paulo é silêncio. Deitei-me por volta de meia-noite de domingo, busquei o sono na TV, depois em um livro, corri a um áudio book de Érico Veríssimo, lido por Paulo Autran. Por alguns instantes, vi o sono se anunciar, cheguei a me perder em pensamentos esquecidos e as faces turvas de sonhos começaram a se confundir em minha cama. Miragem... Os sonhos se desvaneceram, o sono fugiu e levantei: insônia. 03 horas da manhã, saí à cozinha para fazer um chá, saí a rua para comprar um pão, volto à cama onde as lembranças do mestrado me fazem levantar de um pulo: questionário para a disciplina na faculdade de direito; seminário sobre saúde pública e Habermas para a disciplina de prof. Laurindo; projeto para revisar para a comissão de ética e para o exame de qualificação, mais à frente.
Volto ao computador, lendo o texto de Tucídides para profª Elza. O corpo, rente à cadeira, os olhos vidrados na tela, as mãos sobre o mouse, enquanto o pensamento vadia por terras longíquas, sem parar um instante em lugar nenhum, como se vento zombateiro fizesse meus pensamentos de folha seca, de flor que voa, sem destino e sem cessar, ao sabor das brisas.
A insônia é um lugar curioso. Uma imensa solidão se nos abate: somos os últimos seres sobre a terra. A impressão é temperada pela certeza (incontestada) de que o Sol renascerá e com ele, as pessoas de suas camas. Enquanto dura, porém, é uma solidão acolhedora, que nos confere liberdade quase irrestrita e um poder súbido, ambos limitados pelo imperativo de silêncio. Hum... Dormem tranquilos, como na música de Caymmi: "é tão tarde, a manhã já vem, todos dormem, a noite também. Só eu velo por você, meu bem...". Só eu velo. Por quem será? Dizia Vieira que muita ama, quem muito vela. Mas eu velo por alguém, ou apenas peno, vago, erro pela noite em claro, como barco à deriva ou lembrança translúcida?
 
Olho as fotos que tenho sobre a mesa, os livros desarrumados, e lembro do texto de Tucídides... Meu bom Deus, que faço eu lendo Tucídides às 04 horas da manhã? "Para que tanta perna, meus Deus, pergunta meu coração", mas quando me vejo pensando em Poema de Sete Faces, sei que preciso voltar ao questionário. Minh'alma quer voar, chega a ensaiar um abrir de asas, mas o mundo nos enraiza com questões práticas e respostas razoáveis... Que tédio, meu Deus, é ter raízes. 

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre a felicidade...




Por que a alegria é tão breve,
Por que a paz assim tão fugidia?
O instante em que me sinto leve,
Logo foge, como brisa vadia.

Eu tento retê-la, guardá-la comigo,
Como quem se agarra em vão
Ao vento que parte, indeciso,
Ou quer conter o tempo co'a mão.

Quero guardar esse sentimento incerto,
Que lembra a brisa fresca que acalma,
Ou sombra, que me abriga do dia aberto,
Ou mar que murmura os anseios d’alma.

Eu sigo, assim, caminhando sem saber aonde
Vou, pintando nos olhos, a tinta do seu sorriso.
Eu busco entre as folhas, onde se esconde
O sentimento que dança, à barra de seu vestido
(Thiago Marques, 14/dezembro/2010)


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carta a uma amiga

Basta-me apenas que me diga algum acontecido, alguma boa notícia. Algo que me deixe mais perto de casa.

Diz-me apenas um sorriso,
Olha-me apenas uma canção,
Acena-me uma saudade sem aviso,
Qualquer alento pr'o coração...

(Thiago Marques, 18/Outubro/2011)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Haver



O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo,
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos,
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito,
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível,
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius...

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza,
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido,
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos,
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história,
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento,
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável,
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada,
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada
(Vinícius de Moraes)

O ocaso do amor


É uma impressão muito pessoal e, portanto, eivada de subjetividade e engano em potência. Mas o que foi feito do Amor? Eu cresci sob a égide do Amor de Vinícius, o Amor que consome e alimenta a alma, que cega e ilumina a razão, que só é grande se for triste. Era um amor que sofria inevitavelmente a despedida, apenas para se reencontrar em mais beijos do que há peixes no mar. Um Amor que não pode ser separado da coisa amada, que não conhece distância, que se encontra quando se perde, o amor que há para se dar e que é eterno, enquanto dura.
Mas que caminho não trilhou o Amor. Lembro de ler O Banquete de Platão no primeiro ano da faculdade de Letras. Platão definia o amor como a junção de duas partes que se completam, cuja existência era ideal, preso ao mundo das idéias, superior ao homem, inalcançável, ou ao menos se bem me lembro, um Amor sobre o qual o homem não tinha qualquer interferência: o amor platônico.
Amar parace desenhos que fazemos na praia. Desenhamos corações que são, inexoravelmente, desfeitos pelas ondas verdes do mar. Mas como em uma dessas certezas de criança, continuamos desenhando o coração, que é defeito pela onda, mas voltamos a desenha-lo, em um ciclo sem previsão de término. Não é bem isso com o amor?
No século XII, imperava o Amor cortês.  Uma idéia racionalizda de Amor estendida em normas de conduta, em uma etiqueta de Amor, pautado pela exaltação e transcedentalidade de um amar que, provavelmente não se realizaria. Mergulhado no contexto de casamentos por conveniência, pautados pelo que era oportuno, pelo interesse e pacto político, o destino do Amor estava relegado à exaltação de um encontro impossível.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Chuvas d’Alma


Chuvas d’Alma

A Chuva ecoa triste, por dentro de mim,
Como se um vazio a atraísse, confusa,
Como fosse minh'alma a própria Chuva,
Como fosse minh'alma começo e fim.

Sinto a Chuva que cai e quebra,
Ouço o Vento que pára e chora,
Olho o Tempo que vai embora,
E o tempo todo volta e nos celebra.

Observo a Chuva que cai devagar,
E devagar me chove os olhos caídos,
A murmurar, a murmurar...

Escuto atentamente o seu o gemido
Que me chama a alma, como a calar
O espirito que quer se encontrar perdido.

Thiago Marques (São Paulo, 13 de Outubro de 2011).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Saudades distantes

Sinto esta saudade imensa de um lugar e de um tempo que nunca conheci. Vêm-me notícias, vez por outra, em cheiros e aromas intimamente desconhecidos, em músicas que caminham pelo ar, despercebidas de meus ouvidos, ou mesmo na forma como a luz passa por entre as folhas, ou cai sobre o mar. Embalado por esta nostalgia do não-vivido, perco-me às vezes em suspiros longos sem saber pelo quê suspiro.


É um sentimento que me acena nos fins de tarde, nas auroras de insônia, mas que também sabe chegar de repente, sem anúncio, sem aviso, sem telefonar antes. Essa saudade distante me pega pela mão e me leva a um sem-fim de lugares: Passamos por ruas estreitas, onda a luz mal cabe entre as paredes coloridas de tinta descascando. Passamos por sob copas altas de árvores centenárias, cujas folhas chovem nomes de velhos conhecidos, ainda por me serem apresentados. Passamos por pessoas que me sorriem, acenam e se despedem, com um único gesto. Passamos por praças de bancos vazios, até uma estação velha de trem e seguimos para o espaço entre o sonho e o acordado, no momento exato em que passado e futuro, sonho e dia, possível e inimaginável se cruzam, convergem.
Tudo isso se passa em um segundo, entre sentir esta saudade desconhecida e despertar de um déjà vu desconcertante. Não sei se isso está relacionado com esse sentimento de que sou um exilado em meu tempo. Essa certeza de que não pertenço ao hoje, nem ao amanhã, mas que meu lugar foi há muito tempo. 
É nos momentos em que a saudade me toma de assalto e vamos juntos "fugindo, a todos sempre sorrindo, bem longe nos ocultar" (como nos versos de Castro Alves), que eu me sinto em casa. Apenas naqueles segundos fugidios, não me sinto perdido neste retrato desbotado, em branco e preto, de formas incertas e traços imprecisos. Não é como no D. Casmurro de Machado, não quero reconstuir a casa de minha infância. Tratata-se de uma casa, de um lugar que foi há muito, sem nunca ter sido de fato. Mesmo não sendo como Bentinho, os vazios se refletem.
Noutro dia, reconheci-me, assim, por alguns instantes, nas linhas de um poema de Ana Cecília Bastos*, e foi emocionante me ver de volta à casa onde sempre morei, mas nunca estive...

* http://casulotemporario.blogspot.com/2011/10/ocaso.html

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Conversas com o Tempo


Os prédios da Faculdade de Direito, pintados de rosa,
Deixaram o Céu, antes tão solto e azul, quadrado.
As Nuvens, tão brancas, caminhavam preguiçosas
Enquanto o Tempo se sentava ao meu lado.

Sozinho, as horas demoram mais pra passar.
Os alunos, ensimesmados, conversam calados:
Tomam café,  escrevem e se beijam sem pensar,
Nisso, enquanto o Tempo está sentado ao meu lado.



Juntas, as pessoas não se falam e se sentem sós.
Mas quem sou eu pra falar, se também me calo?
Se também não falo, assumo essa solidão atroz?
Estico as mãos, para silenciar as perguntas num estalo.

As Nuvens passaram e a Luz brinca com as Sombras.
Há protestos, nas pilastras de concreto, em tons de carmim.
 Olho para o Tempo que me olha e seu olhar zomba:
Enquanto observa minha impaciência, ele ri de mim.

Tenho sede, tenho sono, doem-me os pés nos sapatos.
Escrevo o que sente meu corpo, mas não me olho a alma.
Não procuro a inquietação das noites em que passo acordado.
Contento-me com o silêncio, aceito de bom grado a calma,
Enquanto o tempo permanece sentado ao meu lado.
(Thiago Marques, São Paulo, 03/outubro/2011)