sábado, 24 de setembro de 2011

Um poema de chuva

Desde cedo, cai a chuva sobre as telhas amiúde.
Hoje é daquelas noites de vento frio, que logo se sente...
Aí tira o cobertor do armário, faz um chá quente,
Pega um livro velho, ouve um espirro longe: “saúde!”

A chuva dá vontade de cama, vontade de abraço,
A chuva dá saudade de casa, dá saudade de gente.
Mas segue a noite tarde e a chuva (indiferente...)
Murmura seus segredos e ri do esforço que faço.

É gostoso o cheiro de chuva, um cheiro de saudade...
Com a chuva, a Lua se esconde e o céu avermelha.
A chuva que chora, segue rindo ao bater sobre a telha,
E um sentimento novo foge e outro antigo invade.

A chuva que cai turva uma poça co' incertezas e fantasia,
Formando pequenas ondas sobre o chão de concreto,
Uma poça de água abstrata, sob o céu negro e incerto,
Cujas ondas não sabem mais se são tristeza ou alegria.
(Thiago Marques, São Paulo, 24/09/2011)

Lamento Sertanejo - 24/09

Há uma diferença de ares, de costumes e de viver, enfim, entre os baianos do litoral e do interior. Mas todos compartilhamos um profundo enraizamento, um orgulho de nossa cultura e baianidade nordestina. Aqui em São Paulo, tendo muitos nordestinos e, especialmente, baianos, amiúde nos alegramos com um sorriso e um reconhecimento "Você não é daqui, é?". E isso nos transporta, faz-nos sentir em casa novamente, ainda que por um instante apenas.

Talvez por esse enraizamento, por conta desse se saber nordestino e se sentir à vontade entre os seus, haja um estranhamento inevitável em terras estrangeiras. Aquele povo que não sorri como você, não fala, não anda, não beija como você sempre fez. Nada de errado, é apenas diferente... Não sei. É como na música de Gil ou Dominguinhos, Lamento Sertanejo.


Hoje o dia começou muito quente. Quase me reconheci no calor seco que emanava do asfalto. No fim da tarde, já o frio se estendia sobre a casa e o barulho bom de chuva no telhado me chamava. Mas tudo bem, o frio e a chuva sempre me foram benquistos. Cresci entre histórias sobre o sertão, contadas por meu pai e meu avô, e a chuva sempre me trouxe um cheiro bom de terra molhada e esperança renovada, como herança serteneja.

Em um poema que escrevi em maio/2011, falei sobre amor e esperança e era algo assim:  (...) amor é promessa,/ Que se renova todo dia, na ligação dos pontos a mostrar o caminho,/ É voto, é prece, é oração que fazemos como quem tece o linho,/ E a certeza de que é o tempo é nosso e podemos nos amar sem pressa".


domingo, 18 de setembro de 2011

Para a nova mamãe, Paty

Vou tomar a liberdade de homenagear a mamãe Paty também. Esse mulher iluminada que deixa meu amigo tão feliz. Além disso, a maternidade é algo que sempre merece louvores, em minha opinião. Especialmente está mamãe, que também me deixou muito feliz! Parabéns Paty! Força estranha de Caetano Veloso: "eu vi a mulher preparando, outra pessoa. O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga. A vida é amiga da arte, é a parte que o Sol ensinou..."


E, se você estiver certa Paty - e intuição de mãe dificilmente se engana - outra canção de Vinícius. Acho que quando escrevi o post de Luiz, levei um pouco de meu sonho junto: ser pai de uma menininha linda. Mas também pensei nessa música, quando imaginei o post para Luiz. Vai para você, Paty, O filho que eu quero ter, de Toquinho e Vinícius, cantado por Chico Buarque:

Inquietação

Estou em um clima inquieto. Uma incerteza das coisas, uma inquietação sem nome, um fim de tarde que não  sabe direito se é dia ou se é noite.
Quis dormir cedo, não pude. Quis tocar violão, não durou. Quis ligar, quis escrever, mas para ninguém. É como uma saudade sem passado, um nome sem rosto, uma lembrança que não se materializa, pendendo sob os olhos, é uma miragem que se desfaz quando se estica o braço. Coisas da modernidade, diria Áurea. Mas não sei bem... Sei que essa música sempre me traz uma doce calma: Mariana, de Yamandú Costa, tocada em parceria com Armandinho. Dois dos maiores instrumentistas do Brasil, um baiano e outro gaúcho.

 

Por falar em Yamandú e baianos, outra música que adoro: Drão, de Gil com Yamandú Costa. Outra canção que me acalma muito. Talvez seja essa idéia de que somos como grãos que morremos e germinamos diariamente, para renascer renovados. Somos como grãos que sofremos um pouco, morremos um pouco, germinamos e, na inquetação nossa, rompemos o casulo do chão, e nascemos novamente.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sexta-feira na Bahia.

Hoje é sexta-feira e, no restaurante da faculdade, fizeram peixe. Um peixe assado, até bonitinho, branco e preto (carne e pele), que só me fez lembrar a São Paulo do asfalto e concreto. Isso, claro, me deu uma saudade retada de Salvador e logo me fez lembrar daquela música Toda sexta-feira, que Belô Veloso canta com uma voz tão gostosa... É bom para embalar o post e entrar no clima da sexta-feira (clique aí embaixo, vá...).



Isso porque sexta-feira, na Bahia, é dia de comida baiana nos restaurantes. É dia de comida de santo: acarajé, farofá de dendê, vatapá, bobó de camarão, moqueca de peixe (está sim, colorida, de pimentões verdes e vermelhos, aquele dendê "dourado" e fumegante, com camarões e pimentas vermelhas), tudo acampanhado com molho de pimenta e um arrozinho branco.
  
Em 1999, eu comia sexta-feira no Porto da Barra, depois das aulas de Letras, lá no Campus de Ondina. Passeando no carro de Ediene, aquele vento bom no rosto, a Orla ensolarada, com o mar feito um espelho d'água, ou um mosáico de cores vivas, movendo-se no embalo leve das ondas leves do início de tarde.


Em 2008, era no shopping Capemi (Av. Tancredo Neves), no intervalo da CEF. Correria, trânsito, gravata e, por meia-hora, o esquecimento delicioso dos almoços de sexta-feira. No final de 2009, e em 2010, era comida baiana no Pelourinho (a convite de meu saudoso amigo, Wilson, para uma prosa mole e boa com Gustavo, antes de Luciana chegar na Procuradoria). O restaurante era num casarão antigo, descendo uma daquelas ruas estreitas, que dão na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Negros. Depois era subir de volta as ladeiras, de pedras redondas e escuras polidas pelo tempo, ornadas com casarões coloridos, pintando quadros de rosa, azul, amarelo e branco. Daí, era inevitável tomar um sorvete na Cubana, ao lado do Elevador Lacerda, e olhar demorademente a Baia de Todos os Santos lá embaixo.



Sexta-feira, na Bahia, é dia de vestir branco, é dia de descer da Federação para o Rio Vermelho, com o pessoal bom da faculdade, tomar cerveja, comer acarajé e encontrar a cidade toda lá. É dia de beber água de côco em Ondina, ou de happyhour nos bares do Jardim dos Namorados, com Luiz e Aninha K. Sexta-feira, na Bahia, é dia de matar saudade, de contar mentira, de dar risada e de falar bobagem. É dia de aprender a fazer renda (em pingo d'água) e de ensinar a namorar. Sexta-feira, na Bahia, toda voz é riso, todo canto é santo, toda gata é parda e toda pele é negra. Sexta-feira, na Bahia, é dia de dar o zignal no(a) namorada(o) e encontrar a galera.
Sexta-feira, na Bahia, é dia de ver os amigos velhos - Dmitri, Rodrigo, Netinho, Léo Baruch, Mezenga, Toninho, PF e cia. - pra falar da semana, planejar o sábado e o domingo, sabendo que encima da hora, é bem provável que se faça outra coisa. 
Sexta-feira na Bahia é dia de Oxalá velho, é dia de refletir e esquecer. É dia de sair mais cedo do trabalho/escola/faculdade/estágio e caminhar à beira-mar, em direção ao pôr-de-sol, prometido desde segunda-feira. 




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Para o novo papai, Luiz

Quero, aqui, fazer uma homenagem a meu bom amigo Luiz, que será papai em breve. Parabéns, Luiz! Valsa para uma meninhina, de Toquinho e Vinícius.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

De volta pro futuro

Conversando por telefone com uma amiga, outro dia, ela falava sobre O homem do futuro  e Meia-noite em Paris. Ela comentou como os dois filmes falam sobre a inquietude, a dificuldade com o presente e a nostalgia. Veio-me à lembrança uma música de Coldplay que gosto muito, The Scientist.


Eu, quando ouvi falar do novo filme de Wagner Moura, pensei também sobre isso. Parece que há um desejo, um sonho universal, a esperança de voltar ao passado e mudar o presente. Vê-se isso em filmes vários, em poemas quinhetistas, barrocos e românticos, em músicas, no livro de Wells, A máquina do tempo, enfim. Eu próprio, quantas vezes já pensei em voltar ao passado, imaginando o que faria diferente...


Mas a verdade é que houve um motivo para as coisas caminharem como caminharam... Nem tudo dependia de mim, nem tudo foi engano e, provalvelmente, pouco valeria a viagem ao passado. Na verdade, acho que só mudaria uma coisa em minha história. Se eu pudesse voltar uns 12 anos no tempo, isso eu mudaria... O quê? Bem, isso ainda é um segredo, que guardo entre meus sonhos e eu.

Talvez Chico Xavier tenha razão e precisemos voltar para o futuro, ou nos voltar para o presente e o futuro. Afinal, somos resultado deste passado que, amiúde, rejeitamos. Ao invés de sonhar com uma máquina do tempo, bom aprender com os erros e buscar não repetí-los. Como disse Chico, "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim". Essa idéia é suficiente para mim...

Soneto de Despedida

Quando eu finalmente me despedi,
Você já partira há muito tempo
E então, estava eu sozinho, ali,
Cheio de certeza e arrependimento.

Naquela tarde, eu a escutava atento
Dizer suas verdades tão doídas,
Como quem espera um último alento
Nos momentos antes da despedida.

E eu me despedi, sim, cheio de medo,
Deixando pra trás sua boca em movimento,
Levando comigo uma tristeza e um segredo.

Fitei, incosequente, o firmamento
E, apesar de hesitar por um segundo,
Fui-me embora, noite afora, mar adentro.
(Thiago Marques, 01/03/2011)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um Conto Chinês

Neste fim de semana, assisti Um Conto Chinês. É um filme argentino, com Ricardo Darín (de O segredo de seus olhos), leve, sensível, engraçado... Fantástico. O filme me falou sobre generosidade, sobre a dificuldade de superar padrões e de conviver com o diferente. Falou-se sobre alteridade, riscos, sobre superar medos e se abrir para o próximo, para a amizade, para o Amor.


É engraçado sem ser óbvio, sensível e reflexivo na medida, com uma narrativa leve e cativante, personagens bem-escritos com estórias envolventes. Recomendo! Aproveito para recomendar o premiado O segredo de seus olhos, é também apaixonante! O recente cinema argentino, assim como o francês, tem se mostrado muito rico e, ao menos para mim, um excelente programa. 




Ah, sim, bom colocar um vídeo de Um conto chinês, né?



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carta em Abril: Sinais de fumaça e notícias da chuva

    Hoje, e desde segunda-feira, São Paulo está docemente fria. Variando entre os 14 e os 17 graus. A paisagem mudou, mudaram as roupas, as pressas e as noites, que agora passo aconchegado entre cobertores. O frio e a chuva sempre me foram benquistos. Cresci entre histórias sobre o sertão, contadas por meu pai e meu avô, e a chuva sempre me trouxe um cheiro bom de terra molhada e de esperança renovada, como herança sertaneja.
     Sinto-me feliz, talvez o amor seja mesmo uma trégua: acordo de paz celebrado entre nós e a vida. Ela de lá nos acena com uma bandeira branca e nós, de cá, baixamos os escudos, entregamos as armas e nos comprometemos a viver, enfim. A propósito da metáfora de raizes roubadas, a senhora estava certa: Mário Benedetti é fantástico! Estou lendo A Trégua (o diário de Martin Santomé) e estou adorando. Que boa companhia me faz... rio com suas observações irônicas e surpreendemente sinceras, ao tempo que me vejo refletido em muitas de suas inquietações. Acho que estar só e longe de casa nos leva a refletir e minhas reflexões são, amiúde, alimentadas por inquietações. Mas, como escrevi recentemente em um email, é nessa inquietação que a flor vence o grão, vence a terra, vence o asfalto e "brota do impossível chão" (como disse Chico parafraseando Drummond).
     Acho que fico, aos poucos, mais meu amigo. Na solidão, eu me faço companhia, ouço jazz (agora toca John Coltrane na TV a cabo), leio e volto a velhos temas. Em um desses momentos comigo mesmo, pensava sobre o porquê de certos acontecimento e sobre minha fé. Estou longe de respostas, mas a fé segue dando sentido a diversos eventos em minha vida.
(Thiago Marques, 28/04/2011)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Homens e Deuses

Há umas semanas, fui ao cinema assistir “Homens e Deuses”, no Cine Reserva Cultural. Trata-se de um filme tocante sobre oito monges missionários vivendo em uma comunidade islâmica, na Argélia, que cresceu ao redor e em função do mosteiro. Eles vivem em grande harmonia com essa comunidade, até que a tensão entre o exército e um grupo terrorista, ameaça sua segurança. Eles então se vêem em um dilema: abandonam o mosteiro e voltam para a segurança de seu país de origem (França) e de suas famílias, ou arriscam sua vida para continuar ajudando a comunidade.

Como os próprios monges se organizam comunitariamente e tomam suas decisões juntos, sentam-se os oito em uma mesa para responder à pergunta e não há um só argumento racional – dentro da racionalidade orientada pela utilidade – para que eles permaneçam. Apenas um forte sentimento de responsabilidade, solidariedade e senso ético faz com que aqueles homens, incrivelmente corajosos e demasiadamente humanos, pensem em ficar. O filme conta uma história real, e não quero estragar o final. Recomendo apenas que assistam, vale muito à pena!

Sobre a solidariedade

Andando pela Avenida Paulista, fui me sentindo oprimido. Eram pessoas pela rua mendigando dinheiro, comida ou qualquer atenção; os errantes com ares de louco gritando com o vazio (ainda que gritassem com as pessoas, continuariam falando sozinhos); dois rapazes de bicicleta que furtaram uma moça; um homem que dormia em frente a uma agência bancária, abraçado a um cachorro preto por companhia e calor, no fim de tarde que anunciava uma noite muito fria. Uma senhora, que poderia ser uma de minhas tias ou professoras, de óculos, ar grave, inteligente e orgulhoso.
Desde que ingressei no mestrado – às vezes por essa razão, noutras não – vejo minhas conversas convergirem para um mesmo ponto. Ouço a mesma questão, ainda que com outras palavras: por que devo me responsabilizar pelo próximo? Talvez em um individualismo que vem marcando nosso tempo, talvez por uma opção político-ideológica, ou por um cinismo que é cada vez mais exaltado, esse questionamento vez por outra volta às rodas de conversa. Habermas vai dizer que isso é um reflexo da busca pela felicidade, hoje entendida de modo individualista e associada a uma autonomia individual, moralmente agudizada[1].
Isso me levou a pensar sobre a já muito comentada passagem bíblica na qual Caim, questionado por seu criador sobre o paradeiro do irmão Abel, responde irritado: “Sou por acaso o guardião do meu irmão?”. Bauman[2] não hesita em responder com um sonoro sim a essa pergunta e eu sigo com ele. Bauman concorda que, inseridos em uma racionalidade prática de mercado, não há argumento racional que responda satisfatoriamente à inquietação de meus amigos e amigas. Não há ganho, lucro, vantagem, aumento de eficiência ou "utilidade" em assumir o cuidado com o próximo. Muito pelo contrário, em verdade. Não há nenhuma “boa-razão” para se responsabilizar pelo outro ou ajuda-lo na busca pela felicidade, essa mesma busca que nos torna tão individualistas, como sustenta Habermas.
Realmente, nesta lógica de mercado, não é "razoável" ou "sensato" fazê-lo, mas em uma sociedade moral (ou que se pensa moral, ou que se almeja moral, enfim), a solidariedade e os argumentos morais deveriam bastar, já que em sociedades complexas como a nossa, “a moralidade só tem a ela mesma para se apoiar” [3]. A noção de que nossos atos afetam o próximo e a lembrança ética do bem comum, herdada de Aristóteles; a solidariedade e fraternidade, ideais da revolução francesa e já antes dela, da tradição judaico-cristã, deveriam ser suficientes, ainda que não sejam eficientes, não tragam lucro, ou ganho material imediato.
Fiquei pensando e eu respondo àquela pergunta : Por solidariedade e responsabilidade social. Eu fico com a solidariedade e a responsabilidade, ainda que possa parecer ingênuo no contexto em que vivemos. Eu fico com o argumento ético, abdicando da utilidade e acreditando, ainda com Bauman que “é melhor se preocupar do que lavar as próprias mãos, melhor ser solidário com a infelicidade do outro do que ser indiferente, é muito melhor ser moral, mesmo que isso não faça as pessoas mais ricas nem as companhias mais lucrativas” [5]. No célebre livro de Antoine de Saint-Exupéry, em um dado momento, se me lembro bem, a Raposa diz ao pequeno príncipe: “somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos”. Eu vou além e digo que somos responsáveis por todos aqueles que, seja por qual razão for, precisam de nossa ajuda, ainda que nem sempre possamos, ou saibamos como ajudá-los.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Medos

Como temos medos e como deixamos de arriscar por força deles... Não percebemos como eles nos acorrentam, como nos limitam os vôos. Um desses medos, é o de dizer o que sentimos. Sempre fui levado a crer que ao dizer o que sinto, vou me fragilizar, demonstrar fraqueza, vou estar me vitimizando, ser mal-interpretado ou simplesmente, usado.
Mas tenho que me abrir mais, ter mais coragem e força para falar de meus medos e demonstrar minhas fraquezas (na hora certa, no lugar certo e para as pessoas certas). Em minha última história, quando fiz isso, eu me arrependi bastante. Mas hoje, novo retirante, se quero alcançar um destino novo, não posso seguir os mesmos caminhos.

domingo, 4 de setembro de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem

Ontem assisti "Planeta dos Macacos: A Origem" (Rise of the planet of the apes). Gostei muito, acho que se alinhou bem com "O Planeta dos Macacos" de 1968, os atores estavam legais (até o loirinho de Harry Potter), a história é boa e os efeitos gráficos fantásticos. Quem faz o mítico Cesar, que é venerado (e com razão) pela sociedade de símios do outro filme, é Andy Serkis, que fez Gollum  em Senhor do Anéis.
O filme me pareceu sensível, inteligente e também tem muita ação, sem perder o foco. A relação entre Cesar, James Franco e John Ligthgow  é tocante e, apesar de ter me assustado com a metáfofra fachista dos gravetos, o enredo do filme é muito interessante: a insurreição política organizada de macacos que são maltratados, humilhados e usados como cobaias.
A única coisa que me inquietou, além da história dos gravetos, é a empatia causada pelos macacos de um lado, e a conduta intragável (da maior parte) dos humanos, de outro. Nos primeiros 30 minutos de filme, já estamos torcendo pelos macacos. As pessoas no filme são egoístas, intolerantes, violentas, insensíveis, ganaciosas, anti-éticas... Isso com macacos e homens também, destaque para a cena em que um vizinho ataca a personagem de John Lithgow, que tem mal de Alzheimer. 

Os macacos, por sua vez, são compassivos, piedosos, sensíveis, solidários e com senso de comunidade. Corajosos, fazem sacrifícios pelos seus companheiros, sujeitam-se a condições humilhantes e aviltantes para não abandoná-los, ou lançam-se à morte para protegê-los.

Talvez o mais interessante do filme seja isso mesmo: inquietar-se e dar-se conta de que nossa falta de humanidade já é lugar comum, e nossa arrogância precisa ser revista.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Portos Seguros e Constelações

Quando estamos em outra cidade, quando partimos mar adentro, buscamos marcos de referência para nos guiarmos. Estrelas e constelações que nos dêem norte, faróis que nos mostrem o melhor caminho para aportar, portos seguros que nos acolham, durante as tempestades.

Talvez por isso, para um retirante, seja tão difícil cortar laços, despedir-se de lembranças, de amigos, de amores e perder, enfim, estes portos seguros e constelações. Pensando nisso, não canso de escutar Vinícius (tenho lembrança dele recitando este poema em um CD antigo, com Toquinho e convidados). Preferia recitar "Soneto do Amor demais", ou "Soneto de Fidelidade", mas são coisas da vida:

                               
Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto,
Silencioso e branco como a bruma.
E das bocas unidas fez-se a espuma,
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento,
Que dos olhos desfez a última chama...
E da paixão fez-se o pressentimento,
E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente,
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo, distante,
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente. 

(Vinícius de Morais)