terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O que me seduz


O que me seduz
É essa delicadeza intensa,
Essa humanidade imensa,
Esses olhos mergulhados em luz.

O que me encanta
É o perfume desse desejo,
São os detalhes que eu vejo,
É o reflexo inevitável que m'espanta.

O que me cativa
É esse imenso sorriso,
É o querer que brota sem aviso,
É essa vontade, essa coragem viva.

O que me prende
É o mesmo que me liberta,
É essa divindade feminina discreta,
Com a qual você me rende.

O que toma e cerca minh’alma
É esse te bem-querer que invade
Casualmente, no meio da tarde,
Numa inquietude cheia de calma.

Thiago M. (27/12/2011)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Soneto de Natal


Há um retalho de lembranças no varal
E uma revoada de risos no corredor.
Há também a nostalgia de um amor
No ar da manhã que nasce, porque é natal.

Jantares em família, presentes de namorados,
Crianças envoltas em sonhos, como se o tempo
Parasse para nos ver passar por um momento,
Antes de o futuro fazer presente o passado.

É tempo de pôr as tristezas e o sorriso em dia,
É tempo de realizar e perder nossos sonhos,
Como esses versos esparsos que em vão componho.

É dia de abraçar amigos e lembrar com alegria
De amores que não voltam mais, porque, afinal,
O ano finda e um novo começa, depois do Natal.

Thiago Marques Leão (23/12/2007).

sábado, 17 de dezembro de 2011

Adeus, meu primeiro amor

Ontem eu me despedi de São Paulo, com um "Até janeiro!". 2011 foi um ano incrível para mim em Sampa. Fiz grandes amigos, conheci pessoas maravilhosas, cresci e amadureci muito. Aprendi a ficar comigo mesmo, aprendi limites e potenciais que desconhecia em mim e me aproximei muito mais de minhas metas.
Despedi-me de São Paulo, assim, levando saudades dos amigos e da própria cidade. De tudo, carrego comigo as feiras de artesanato e as de frutas, o barulho dos carros, os artistas mambembes, as ruas, os parques. Levo, também, uma noite de Natal em São Paulo. Cedo para o Natal, eu sei... Mas ficou em minha cabeça. 


Saia do filme "Adeus, meu primeiro amor". O título original é "Un amour de jeunesse", um amor da juventude. Ambos os títulos retratam bem o filme, que é intenso, com diálogos e personagens muito cativantes. O pano de fundo, ora urbano e confuso, ora idílico, de uma França do início da década passada abriu as portas para um história quase universal, com a qual é difícil não se identificar. Nesse amor da juventude, como não poderia deixar de ser, tudo é vivido como em um mergulho constante, profundo e intenso, no qual às vezes nos sentimos abandonados, em queda livre. Notros momentos, porém, somos acolhidos pelos braços nos quais nos atiramos. O filme mostra a jornada entre este amor de criança e o encontro com o amor maduro. Retrata bem, ainda, como é difícil dizer adeus a esses sonhos e amores de infância.
O filme, realmente, me envolveu e me levou a passeio, por ruas velhas e esquecidas na memória, trouxe à tona rostos de há muito, e sentimentos guardados. Na história que seguia na tela, fui junto por histórias minhas.


Era início de madrugada, mas quando saímos do cinema, entramos em uma Av. Paulista movimentada, pela proximidade das festas de fim de ano. Vastamente iluminada, com casas feitas de brilhantes e ornadas, e árvores abraçadas por pequenas luzes brilhantes. Uma Av. Paulista cheia de estrelas no céu e estrelas no chão. 
A noite estava fria, mas as pessoas passeavam em família, conversavam, sorriam. Quis caminhar, seguir pela noite, que já era madrugada. Olhando as decorações de natal e me sentindo meio aéreo, mergulhando no romantismo juvenil e saudoso que o filme trouxera. 

Em um dado momento, olhei a Lua, que de repente, se deixou no céu, como esquecida, parafraseando Vinícius. Estava linda, "boiando no céu imensa e amarela". Um leve véu de nuvens, translúcido e leitoso, deitava-lhe sobre os ombros e meus olhos se enamoraram. Foi uma noite muito gostosa.
Esta noite, de 10/dezembro/2011, vou levar comigo como lembrança e despedida de São Paulo. Levo a lembrança de passear na sua garoa, e me despeço do estranhamento e do fascínio, e do desejo e da saudade, e do bem-querer e da revolta, e do encontro e desencontro, e de não ter me visto refletido em seu espelho de Narciso no início, e de tudo tão diverso, que nunca conviveria assim em outro lugar que não São Paulo. Parti para Salvador - meu amour de jeunesse - dizendo à cidade de São Paulo, onde me encontrei mais maduro, "Adeus, meu primeiro amor, em Janeiro eu volto" .



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Explode Coração


Não lembro exatamente como conheci Gonzaguinha, mas lembro de sempre tê-lo escutado. Apesar de chicólatra assumido, Gonzaguinha embalou mais histórias a dois minhas do que Chico (por qualquer razão, Chico me acompanhou mais em histórias sem meio e final feliz, até hoje acompanha). 

Lembro de um fim de ano em Lençóis-BA, em que formamos uma imensa roda de violão, perto da praça. Eu tinha deixado o curso de Letras e, há mais ou menos quatro meses, não fazia nada além de tocar violão em casa e lamentar. Então, tinha um certo repertório (Caetano, Roupa Nova, Gil, Vinícius, umas internacionais como More than words e tal). Era início de noite, a roda foi se formando aos poucos, lembro bem de um hippie que se animava demais com as músicas e de algumas amigas, e de ouvir um senhor, que integrou a roda (acho que o pai de Ticiana Falcão) tocar "E a vida, e a vida o que é? Diga lá meu irmão" no violão, com aquele jeito seresteiro de tocar. Voltei para casa cantarolando Vinícius, "eu não ando só, só ando em boa companhia, com meu violão, minha canção e a poesia".

No ano seguinte, com minha primeira namorada séria, adorava tocar no violão "espere por mim morena, espera que eu chego já", até porque Morena, era como eu gostava de chamá-la. Também foi dessa época meu encontro - como quem se vê refletido no espelho pela primeira vez - com "um homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas" e, finalmente, "eu gosto, quando 'ocê faz o que eu gosto, quando 'ocê faz o o que eu faço em 'ocê", cuja simplicidade e o dengo da música me embalavam demais...

Antes disso tudo (a linha do tempo desta crônica está completamente atropelada), um grande amigo de colégio, Lúcio, me disse um verso, enquanto estudávamos literatura. Eu era apaixonado pela matéria (não à toa prestei  letras no vestibular 02 anos depois) e nossa professora era a saudosa D. Edna. Eu explicava o que era uma metáfora, lembro bem, e falava sobre um paixão da época - Julia - e Lúcio, sempre muito inteligente e violonista, deu como exemplo "quero mais que a vida entre assim, como um sol desvirginando a madrugada". Achei aquela imagem PERFEITA. E, na verdade, é desta música que eu queria falar: "Explode Coração".


Hoje, conversando com minha amiga Neida, lembrei dessa música. Diga-se que eu, inclusive ainda tinha dúvidas sobre a autoria (confesso meio envergonhado, não sabia se era Gonzaguinha ou Caetano)  e, quando Lúcio citou (no final dos anos 90), achei que fosse de Chico. Explode Coração é algo de genial... A melodia casa perfeitamente com a letra, e a música vai nos encaminhando passo-a-passo, a seu desfecho.  O encadeamento de versos e de verbos é brilhante. De início, no infinitivo, que não nos traz para tempo nenhum. A imagem parece flutuar, como um sentimento universal e reconhecível por todos, mas que só introduz a música, sem situá-la, necessariamente, em um passado, presente ou futuro: "chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar".

Daí, introduzido por essa imagem plástica genial, que é "quero mais que a vida entre assim, como um sol desvirginando a madrugada", o verbo passa para o gerúndio, indicando uma ação em movimento, fazendo com que a música o tempo todo nos traga para o "agora". O sentimento aflora, transborda porque somos transportados para o agora da música, engolidos no caminhar cada vez mais intenso da letra: "Quero sentir a dor desta manhã nascendo, rompendo, rasgando, tomando, meu corpo e então eu chorando, sorrindo, sofrendo, gostando, adorando, gritando". 

A letra e a melodia, enfim, a canção nos toma pela mão e nos leva correndo, parece que vamos vencendo portas e barreiras que protegem nosso coração, atravessando multidões, como naquele poema de Castro Alves "vamos meu anjo fugindo, a todos sempre sorrindo". A emoção borbulha, levados pela música, nós que tentávamos dissimular, disfarçar e esconder, começamos a sentir que algo está nascendo, rompendo, rasgando, tomando nosso corpo e então, "não dá mais pra segurar, explode coração!


Há algo de muito sensual nessa música também, não é? Sensual porque apela para os sentidos, mas sensual naquele outro sentido que nós pensamos primeiro, também.

Neida comentou, que seu coração já explodiu antes, mas ela colou e hoje ninguém diz que é colado. Como na música de Ivan Lins (outro que me leva longe) "O amor junta os pedaços, quando um coração se quebra. Mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra. Fica tão cicatrizado, que ninguém diz que é colado". Bem, mas lembrei disso agora. Lá, respondi a Neida: Acho que o coração que quebra e a gente cola bate melhor. Bate mais gostoso, mais melodioso. Coração que não quebrou, ainda, é feito violão com corda nova: desafina demais. Samba-canção bem tocado, só depois do coração explodir...


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Amor pra toda vida


Quero um Amor pra vida toda e mais.
Um Amor que renasce todo dia,
Todo dia descobre outra alegria.
Amor que desconhece o tempo, assaz.
  
Um Amor que se apaixona novamente
Todo dia e que assim se redescobre
Novo no mesmo amor, ‘inda mais nobre.
‘Inda mais certo desse amor que sente.



Não quero o amor que é fogo sem raiz,
O amor que segue o tempo, seu senhor,
Mas o Amor que envelhece em paz, feliz.


E quando à tarde, sobre o mar se pôr
O Sol, levando junto o que fiz,
Restará ainda vivo meu Amor.

Thiago Marques – Salvador, 05/01/2007.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobre Gaviões e Passarinhos




Gaviões caçam. É sua natureza, razão e sustento. E eles normalmente são muito bons nisso, desde que não sejam surpreendidos, em pleno voo, por uma presa mais esperta que (às vezes apenas por sua sombra) antevê suas intenções de ave de rapina.
Os passarinhos não caçam. Os passarinhos fazem ninho, cuidam dos ovos, limpam as asas de suas parceiras e as defendem, fazendo o papel de isca quando serpentes, e outros predadores, ameaçam seu ninho com filhotes, ou ovos.
Gaviões são bem acomodados, o que pode parecer contraditório. Mas uma vez estabelecida uma área de caça, enquanto tiver presas suficientes, dificilmente o gavião sairá de sua zona de conforto. Movido por seu instinto de rapina, não vê muita razão em   mudar seus hábitos. "E o falcão peregrino?" alguém pode perguntar. Esclarece-se que isto é uma metáfora, não um ensaio de ornitologia (ciência que estuda as aves).
Os passarinhos, por sua vez voam para o Sul, eles gostam de estar juntos. E por isso, saem em revoada sempre que podem. Quando cai a tarde, voam de árvore em árvore, como se fossem um infinito contínuo de  pequenos pedaços gorjeantes de sonhos, buscando o melhor lugar para dormir. Passarinhos gostam de dormir juntos e se aquecer. Se os gaviões caçam sozinhos, os passarinhos gostam de se conhecer. É porque se conhecem, que em suas revoadas, os passarinhos dançam em perfeita harmonia e, juntos, voam como se um só passarinho fossem, num passaredo.



Gaviões voam alto e, talvez por isso, sozinhos. Passarinhos sabem voar também, mas gostam de voar entre flores, entre árvores, de tocar as ondas do mar com a ponta de suas asas e de deslizar entre prédios, até. Não são de rapina, gostam de romãs doces, mangas amareladas e frutas-do-conde quando começam a abrir. Gaviões caem certeiros sobre a presa, como flecha que abate tudo em seu caminho. Mas não o passarinho. Passarinhos cantam, assobiam melodias. Passarinhos seguem sonhos e às vezes se batem contra vidros fechados, buscando alcançar seu próprio reflexo, transformado em miragem. 
Gaviões são pragmáticos e eficientes, passarinhos são românticos e sonhadores. Passarinhos provavelmente gostariam de Chico Buarque, Vinícius de Morais e Gilberto Gil. Achariam graça de Gonçalves Dias (mas nunca ririam na frente dele para não lhe machucar os sentimentos de exilado). Os passarinhos que voam à noite, provavelmente são apaixonados pela Lua. Os que voam durante o dia esperam ansiosamente o cair da tarde, para voarem juntos e adormecerem aninhados.
Gaviões voam alto no céu e abatem presas. Os passarinhos, aninhados na copa de uma mangueira ou pé de Jabuticaba, sabem o paraíso de estar apaixonados e encantar com seu canto.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Imersão

Outro dia, vi o post de uma amiga no Facebook, falando sobre uma pedagogia que trabalha com a imersão, com o mergulho naquilo que se está fazendo. Nesta escola (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ciepysrwBpQ) os alunos têm, durante um mês, aulas de uma mesma e só matéria (geografia, história, matemática, etc.). O professor Bruno Andrade explica que "é como também se fosse uma viagem. Como alguém que viaja para algum lugar, vivencia aquilo profundamente, e depois se distancia".
Você pode não lembrar o que almoçou ontem, mas vai lembrar das impressões ao caminhar por uma rua de casas antigas, ou do cheiro da comida naquele restaurante italiano, ou de um pôr-de-sol na praia. Não só porque mergulhou profundamente naquela viagem, mas porque tudo isso teve significado. Possivelmente como resultado, também, do mergulho.



Eu fiquei pensando nisso... Parece que não temos muito hábito de fazer essa imersão mais com nada. Queremos (e somos exigidos a) fazer uma série de coisas de uma só vez. Estamos lendo um livro, mas a TV está ligada, o celular está ao lado e pode (provavelmente vai) tocar a qualquer instante, alguém está conversando na sala ao lado, o computador está no Facebook e de tempos em tempos olhamos de soslaio se há alguma novidade, enquanto fingimos conversar com alguém... Enfim. Dificilmente há imersão naquilo que estamos fazendo.
Eu lembro de ler um livro sobre o Japão medieval chamado Musashi. Eu ficava impressionado com a concentração e a verdadeira arte que era dedicada a coisas que, para nós, são banais. O preparo do prato, o treino de espada, a escrita... A ritualização destas práticas levava não a uma  tradicionalização ou imutabilidade mas à possibilidade de significado, de sentido. Assim, podemos vivê-las, não apenas superá-las. Então, o plantio do arroz tem um um ritmo, uma razão de ser. A cerimônia do chá é lenta, calma e embebida em significado.


Nós, por outro lado, estamos sob a égide da produtividade, da eficiência. Estamos jantando com alguém e pensando no que fizemos hoje, no que faltou fazer e no que podemos fazer amanhã. Estamos conversando com amigos na sala, com o notebook no colo e olhando vídeos no youtube. Eu estou tocando violão ou mesmo estudando, mas estou pensando no projeto, cuja metodologia preciso melhorar, mas não vai dar tempo, porque preciso ligar para minha mãe, mas antes, espero que minha orientadora dê resposta da reunião que estou tentando marcar. Há uma esquizofrenia qualquer na forma como fazemos as coisas. Queremos fazer tanto, que acabamos não fazendo, realmente, nada.

Que bom seria, eu imagino, fazer as coisas como quem medita. Observar com calma o caminhar da mão que escreve; o movimento da boca que fala; os cheiros da comida que cozinha; o ritmo da respiração, os passos que se sucedem e o que há ao longo do caminho que se trilha.

Fazer de cada experiência uma viagem, mergulhar nas páginas do livro que se está lendo, passear nas notas da música que se escuta, prestar total e completa atenção à pessoa com a qual se conversa. Fazer uma coisa de cada vez e buscar compreender o significado do que se está realizando. E nesse mergulho esquecer-se de tudo mais, delicadamente.

sábado, 5 de novembro de 2011

Sobre o discenso

Talvez uma das coisas que mais causa desconforto, é o diverso. Se por um lado, a diversidade pode encantar, fascinar e seduzir, é certo que também potencializa o conflito. Encarcar o diferente, aquilo que lhe desconcerta, irrita e contraria, é difícil. Não sei se isso está relacionado à crescente individualização, afinal quando mais pensamos em nós mesmos, quanto mais nos isolamos, mais nos habituamos a nossas verdades apenas. O diferente é causa de sentimentos intensos, como raiva e medo. Estamos tão enraizados em nossas verdades, no mais das vezes elas também enraizadas em ilusões, que nos deixamos perder nelas. Perdidos, nem sempre reagimos bem ao que discordamos. É uma crítica que faço a mim mesmo.
Quero compreender a busca por um entendimento discursivo, pelo confronto racional de idéias em busca de verdade e entendimento. No entanto, fico muito frustrado porque não consigo colocar isso em prática. Não consigo me fazer entender frente a quem não quer ouvir, quer apenas falar. As verdades parecem dadas a algumas pessoas parecem não ter qualquer interesse em escutar.
De toda sorte, eu escuto e tento imaginar se não estou eu errado. Mas no fim, não é isso que me aflige. O que me aflige é a dureza do julgamento, é a certeza inabalável, é a facilidade da condenação, é o ouvido surdo, o olhar insensível e o coração distante.
Mas quem sou eu para julgar? De um lado, eles não querem ouvir, mas de outro eu me entendo certo. A diferença talvez, seja apenas que eu não grito e, em um espaço de tantos barulhos dissonantes, não me faço ouvir. Mas incorro no mesmo erro... Eu me exalto, me ofendo, sinto-me agredido e agrido. É este o meu maior engano.


No momento em que respondo de forma rude e autoritária, incorro no mesmo engano de quem aponta o dedo, levanta a voz, disfere um golpe de pulsos cerrados. Longe de casa, em outro Estado e convivendo com pessoas tão diferentes, a vida passa a ser um exercício de tolerância e auteridade. Não me posso aceitar, quando faço tudo aquilo que tanto critico. É a intolerância com o diferente que leva às violências contra homossexuais, contra outras religiões e posições ideológicas, por exemplo. São formas exacerbadas de intolerância com o diverso, não se comparam à situação que experimentei, mas é também nas pequenas ações, que os homens mostram sua grandeza.
Espero o dia em possa ouvir e manter a calma. Não sentir meu coração disparar e as mãos tremerem, ao som do que considero intolerância, soberba e violência discursiva. Espero a maturidade de ouvir isso e manter a serenidade necessária a responder com ponderação e justiça. Não deixar jamais de me indignar, mas saber ouvir e responder.
Estou muito longe de ser o homem que espero ser. Estou muito longe de ser herdeiro da Terra. Estou muito longe do que escreveu Kipling, em seu poema "Se". Conheci Kipling em um caderno de notas que herdei de meu padrinho Zeca. Nele, transcrito a mão, o poema traduzido por Guilherme de Almeida, que dizia: 

Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,

de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,

em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,

a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!
(Rudyard Kipling - Tradução de Guilherme de Almeida)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poema de Busca e Sonho nº 02

 

 Soneto de Busca e Sonho    

Não quero um rosto apenas. Eu procuro
A boca onde se encontre a minha sempre,
Um olhar sensível, humano e inteligente,
Em cujas águas encontre meu porto-seguro.

Alguém que me alumiassem, se no escuro
Minha alma se perdesse de repente,
E, em silêncio, soubesse quanto sente
O presente, quando não se faz futuro.

Eu quero as promessas do Amanhã...
Eu tenho comigo esse sonho constante
De vê-la trazer a vida à luz da manhã,
De ver-me recriado em um novo instante,
Em uma nova centelha de vida e de amor.

Ouvir na sua respiração delicada o som
Das primeiras palavras vindas sem aviso,
E ser acordando para um sonho bom
Nascido, assim, no infinito de seu sorriso.

Thiago Marques
São Paulo, 04/11/2011


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Canção do Exílio, na Terra Natal


            Essas vastidões me sufocam demais.
            As terras em que nasci me são estranhas,
            A rua em que cresci me corrói as entranhas
            E a alegria que conheci, não há mais.

            Meus olhos buscam olhos diversos,
            Terras distantes, horizontes, climas amenos,
            Rosto novos, vozes calmas, beijos serenos,
Que povoem de sonhos meus versos.

Devo partir, me perder, me encontrar,
Quero de novo, pela primeira vez feliz,
Sorrir e, sem saber por que, me apaixonar.

Preciso, somente uma vez, viver enfim,
Junto a meu povo, fazer o que nunca fiz,
Numa terra distante, tão dentro e fora de mim.

Thiago Marques (Salvador, 14/04/2009).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Insônia nº 01


São Paulo é, em geral, movimento e barulho. Nas grandes avenidas (Rebouças, Paulista, etc.), o som dos carros e suas buzinas, das pessoas e seus telefones celulares sempre em uso, dos pequenos grupos apressados conversando... São também sons alegres, de risadas, de músicos e artistas de rua, de movimentos, passeatas, manifestações.
Aqui onde moro, no Butantã, os sons de sempre se confundem com cães ladrando, carros de pamonha e verduras, sons de carro... De um jeito ou d'outro, São Paulo me parece sempre borbulhar, sempre ter algo a dizer, ainda que nem sempre eu consiga compreendê-la.
Agora, porém, às 3h40min, da madrugada de segunda-feira, São Paulo é silêncio. Deitei-me por volta de meia-noite de domingo, busquei o sono na TV, depois em um livro, corri a um áudio book de Érico Veríssimo, lido por Paulo Autran. Por alguns instantes, vi o sono se anunciar, cheguei a me perder em pensamentos esquecidos e as faces turvas de sonhos começaram a se confundir em minha cama. Miragem... Os sonhos se desvaneceram, o sono fugiu e levantei: insônia. 03 horas da manhã, saí à cozinha para fazer um chá, saí a rua para comprar um pão, volto à cama onde as lembranças do mestrado me fazem levantar de um pulo: questionário para a disciplina na faculdade de direito; seminário sobre saúde pública e Habermas para a disciplina de prof. Laurindo; projeto para revisar para a comissão de ética e para o exame de qualificação, mais à frente.
Volto ao computador, lendo o texto de Tucídides para profª Elza. O corpo, rente à cadeira, os olhos vidrados na tela, as mãos sobre o mouse, enquanto o pensamento vadia por terras longíquas, sem parar um instante em lugar nenhum, como se vento zombateiro fizesse meus pensamentos de folha seca, de flor que voa, sem destino e sem cessar, ao sabor das brisas.
A insônia é um lugar curioso. Uma imensa solidão se nos abate: somos os últimos seres sobre a terra. A impressão é temperada pela certeza (incontestada) de que o Sol renascerá e com ele, as pessoas de suas camas. Enquanto dura, porém, é uma solidão acolhedora, que nos confere liberdade quase irrestrita e um poder súbido, ambos limitados pelo imperativo de silêncio. Hum... Dormem tranquilos, como na música de Caymmi: "é tão tarde, a manhã já vem, todos dormem, a noite também. Só eu velo por você, meu bem...". Só eu velo. Por quem será? Dizia Vieira que muita ama, quem muito vela. Mas eu velo por alguém, ou apenas peno, vago, erro pela noite em claro, como barco à deriva ou lembrança translúcida?
 
Olho as fotos que tenho sobre a mesa, os livros desarrumados, e lembro do texto de Tucídides... Meu bom Deus, que faço eu lendo Tucídides às 04 horas da manhã? "Para que tanta perna, meus Deus, pergunta meu coração", mas quando me vejo pensando em Poema de Sete Faces, sei que preciso voltar ao questionário. Minh'alma quer voar, chega a ensaiar um abrir de asas, mas o mundo nos enraiza com questões práticas e respostas razoáveis... Que tédio, meu Deus, é ter raízes. 

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre a felicidade...




Por que a alegria é tão breve,
Por que a paz assim tão fugidia?
O instante em que me sinto leve,
Logo foge, como brisa vadia.

Eu tento retê-la, guardá-la comigo,
Como quem se agarra em vão
Ao vento que parte, indeciso,
Ou quer conter o tempo co'a mão.

Quero guardar esse sentimento incerto,
Que lembra a brisa fresca que acalma,
Ou sombra, que me abriga do dia aberto,
Ou mar que murmura os anseios d’alma.

Eu sigo, assim, caminhando sem saber aonde
Vou, pintando nos olhos, a tinta do seu sorriso.
Eu busco entre as folhas, onde se esconde
O sentimento que dança, à barra de seu vestido
(Thiago Marques, 14/dezembro/2010)


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Carta a uma amiga

Basta-me apenas que me diga algum acontecido, alguma boa notícia. Algo que me deixe mais perto de casa.

Diz-me apenas um sorriso,
Olha-me apenas uma canção,
Acena-me uma saudade sem aviso,
Qualquer alento pr'o coração...

(Thiago Marques, 18/Outubro/2011)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Haver



O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo,
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos,
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito,
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível,
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius...

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza,
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido,
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos,
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história,
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento,
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável,
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada,
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada
(Vinícius de Moraes)

O ocaso do amor


É uma impressão muito pessoal e, portanto, eivada de subjetividade e engano em potência. Mas o que foi feito do Amor? Eu cresci sob a égide do Amor de Vinícius, o Amor que consome e alimenta a alma, que cega e ilumina a razão, que só é grande se for triste. Era um amor que sofria inevitavelmente a despedida, apenas para se reencontrar em mais beijos do que há peixes no mar. Um Amor que não pode ser separado da coisa amada, que não conhece distância, que se encontra quando se perde, o amor que há para se dar e que é eterno, enquanto dura.
Mas que caminho não trilhou o Amor. Lembro de ler O Banquete de Platão no primeiro ano da faculdade de Letras. Platão definia o amor como a junção de duas partes que se completam, cuja existência era ideal, preso ao mundo das idéias, superior ao homem, inalcançável, ou ao menos se bem me lembro, um Amor sobre o qual o homem não tinha qualquer interferência: o amor platônico.
Amar parace desenhos que fazemos na praia. Desenhamos corações que são, inexoravelmente, desfeitos pelas ondas verdes do mar. Mas como em uma dessas certezas de criança, continuamos desenhando o coração, que é defeito pela onda, mas voltamos a desenha-lo, em um ciclo sem previsão de término. Não é bem isso com o amor?
No século XII, imperava o Amor cortês.  Uma idéia racionalizda de Amor estendida em normas de conduta, em uma etiqueta de Amor, pautado pela exaltação e transcedentalidade de um amar que, provavelmente não se realizaria. Mergulhado no contexto de casamentos por conveniência, pautados pelo que era oportuno, pelo interesse e pacto político, o destino do Amor estava relegado à exaltação de um encontro impossível.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Chuvas d’Alma


Chuvas d’Alma

A Chuva ecoa triste, por dentro de mim,
Como se um vazio a atraísse, confusa,
Como fosse minh'alma a própria Chuva,
Como fosse minh'alma começo e fim.

Sinto a Chuva que cai e quebra,
Ouço o Vento que pára e chora,
Olho o Tempo que vai embora,
E o tempo todo volta e nos celebra.

Observo a Chuva que cai devagar,
E devagar me chove os olhos caídos,
A murmurar, a murmurar...

Escuto atentamente o seu o gemido
Que me chama a alma, como a calar
O espirito que quer se encontrar perdido.

Thiago Marques (São Paulo, 13 de Outubro de 2011).

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Saudades distantes

Sinto esta saudade imensa de um lugar e de um tempo que nunca conheci. Vêm-me notícias, vez por outra, em cheiros e aromas intimamente desconhecidos, em músicas que caminham pelo ar, despercebidas de meus ouvidos, ou mesmo na forma como a luz passa por entre as folhas, ou cai sobre o mar. Embalado por esta nostalgia do não-vivido, perco-me às vezes em suspiros longos sem saber pelo quê suspiro.


É um sentimento que me acena nos fins de tarde, nas auroras de insônia, mas que também sabe chegar de repente, sem anúncio, sem aviso, sem telefonar antes. Essa saudade distante me pega pela mão e me leva a um sem-fim de lugares: Passamos por ruas estreitas, onda a luz mal cabe entre as paredes coloridas de tinta descascando. Passamos por sob copas altas de árvores centenárias, cujas folhas chovem nomes de velhos conhecidos, ainda por me serem apresentados. Passamos por pessoas que me sorriem, acenam e se despedem, com um único gesto. Passamos por praças de bancos vazios, até uma estação velha de trem e seguimos para o espaço entre o sonho e o acordado, no momento exato em que passado e futuro, sonho e dia, possível e inimaginável se cruzam, convergem.
Tudo isso se passa em um segundo, entre sentir esta saudade desconhecida e despertar de um déjà vu desconcertante. Não sei se isso está relacionado com esse sentimento de que sou um exilado em meu tempo. Essa certeza de que não pertenço ao hoje, nem ao amanhã, mas que meu lugar foi há muito tempo. 
É nos momentos em que a saudade me toma de assalto e vamos juntos "fugindo, a todos sempre sorrindo, bem longe nos ocultar" (como nos versos de Castro Alves), que eu me sinto em casa. Apenas naqueles segundos fugidios, não me sinto perdido neste retrato desbotado, em branco e preto, de formas incertas e traços imprecisos. Não é como no D. Casmurro de Machado, não quero reconstuir a casa de minha infância. Tratata-se de uma casa, de um lugar que foi há muito, sem nunca ter sido de fato. Mesmo não sendo como Bentinho, os vazios se refletem.
Noutro dia, reconheci-me, assim, por alguns instantes, nas linhas de um poema de Ana Cecília Bastos*, e foi emocionante me ver de volta à casa onde sempre morei, mas nunca estive...

* http://casulotemporario.blogspot.com/2011/10/ocaso.html

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Conversas com o Tempo


Os prédios da Faculdade de Direito, pintados de rosa,
Deixaram o Céu, antes tão solto e azul, quadrado.
As Nuvens, tão brancas, caminhavam preguiçosas
Enquanto o Tempo se sentava ao meu lado.

Sozinho, as horas demoram mais pra passar.
Os alunos, ensimesmados, conversam calados:
Tomam café,  escrevem e se beijam sem pensar,
Nisso, enquanto o Tempo está sentado ao meu lado.



Juntas, as pessoas não se falam e se sentem sós.
Mas quem sou eu pra falar, se também me calo?
Se também não falo, assumo essa solidão atroz?
Estico as mãos, para silenciar as perguntas num estalo.

As Nuvens passaram e a Luz brinca com as Sombras.
Há protestos, nas pilastras de concreto, em tons de carmim.
 Olho para o Tempo que me olha e seu olhar zomba:
Enquanto observa minha impaciência, ele ri de mim.

Tenho sede, tenho sono, doem-me os pés nos sapatos.
Escrevo o que sente meu corpo, mas não me olho a alma.
Não procuro a inquietação das noites em que passo acordado.
Contento-me com o silêncio, aceito de bom grado a calma,
Enquanto o tempo permanece sentado ao meu lado.
(Thiago Marques, São Paulo, 03/outubro/2011)


sábado, 24 de setembro de 2011

Um poema de chuva

Desde cedo, cai a chuva sobre as telhas amiúde.
Hoje é daquelas noites de vento frio, que logo se sente...
Aí tira o cobertor do armário, faz um chá quente,
Pega um livro velho, ouve um espirro longe: “saúde!”

A chuva dá vontade de cama, vontade de abraço,
A chuva dá saudade de casa, dá saudade de gente.
Mas segue a noite tarde e a chuva (indiferente...)
Murmura seus segredos e ri do esforço que faço.

É gostoso o cheiro de chuva, um cheiro de saudade...
Com a chuva, a Lua se esconde e o céu avermelha.
A chuva que chora, segue rindo ao bater sobre a telha,
E um sentimento novo foge e outro antigo invade.

A chuva que cai turva uma poça co' incertezas e fantasia,
Formando pequenas ondas sobre o chão de concreto,
Uma poça de água abstrata, sob o céu negro e incerto,
Cujas ondas não sabem mais se são tristeza ou alegria.
(Thiago Marques, São Paulo, 24/09/2011)

Lamento Sertanejo - 24/09

Há uma diferença de ares, de costumes e de viver, enfim, entre os baianos do litoral e do interior. Mas todos compartilhamos um profundo enraizamento, um orgulho de nossa cultura e baianidade nordestina. Aqui em São Paulo, tendo muitos nordestinos e, especialmente, baianos, amiúde nos alegramos com um sorriso e um reconhecimento "Você não é daqui, é?". E isso nos transporta, faz-nos sentir em casa novamente, ainda que por um instante apenas.

Talvez por esse enraizamento, por conta desse se saber nordestino e se sentir à vontade entre os seus, haja um estranhamento inevitável em terras estrangeiras. Aquele povo que não sorri como você, não fala, não anda, não beija como você sempre fez. Nada de errado, é apenas diferente... Não sei. É como na música de Gil ou Dominguinhos, Lamento Sertanejo.


Hoje o dia começou muito quente. Quase me reconheci no calor seco que emanava do asfalto. No fim da tarde, já o frio se estendia sobre a casa e o barulho bom de chuva no telhado me chamava. Mas tudo bem, o frio e a chuva sempre me foram benquistos. Cresci entre histórias sobre o sertão, contadas por meu pai e meu avô, e a chuva sempre me trouxe um cheiro bom de terra molhada e esperança renovada, como herança serteneja.

Em um poema que escrevi em maio/2011, falei sobre amor e esperança e era algo assim:  (...) amor é promessa,/ Que se renova todo dia, na ligação dos pontos a mostrar o caminho,/ É voto, é prece, é oração que fazemos como quem tece o linho,/ E a certeza de que é o tempo é nosso e podemos nos amar sem pressa".


domingo, 18 de setembro de 2011

Para a nova mamãe, Paty

Vou tomar a liberdade de homenagear a mamãe Paty também. Esse mulher iluminada que deixa meu amigo tão feliz. Além disso, a maternidade é algo que sempre merece louvores, em minha opinião. Especialmente está mamãe, que também me deixou muito feliz! Parabéns Paty! Força estranha de Caetano Veloso: "eu vi a mulher preparando, outra pessoa. O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga. A vida é amiga da arte, é a parte que o Sol ensinou..."


E, se você estiver certa Paty - e intuição de mãe dificilmente se engana - outra canção de Vinícius. Acho que quando escrevi o post de Luiz, levei um pouco de meu sonho junto: ser pai de uma menininha linda. Mas também pensei nessa música, quando imaginei o post para Luiz. Vai para você, Paty, O filho que eu quero ter, de Toquinho e Vinícius, cantado por Chico Buarque:

Inquietação

Estou em um clima inquieto. Uma incerteza das coisas, uma inquietação sem nome, um fim de tarde que não  sabe direito se é dia ou se é noite.
Quis dormir cedo, não pude. Quis tocar violão, não durou. Quis ligar, quis escrever, mas para ninguém. É como uma saudade sem passado, um nome sem rosto, uma lembrança que não se materializa, pendendo sob os olhos, é uma miragem que se desfaz quando se estica o braço. Coisas da modernidade, diria Áurea. Mas não sei bem... Sei que essa música sempre me traz uma doce calma: Mariana, de Yamandú Costa, tocada em parceria com Armandinho. Dois dos maiores instrumentistas do Brasil, um baiano e outro gaúcho.

 

Por falar em Yamandú e baianos, outra música que adoro: Drão, de Gil com Yamandú Costa. Outra canção que me acalma muito. Talvez seja essa idéia de que somos como grãos que morremos e germinamos diariamente, para renascer renovados. Somos como grãos que sofremos um pouco, morremos um pouco, germinamos e, na inquetação nossa, rompemos o casulo do chão, e nascemos novamente.